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Entrevista / Maria Alice Vergueiro

A coragem e o teatro de Maria Alice Vergueiro.

 

Nossos parceiros Sesi e Sescoop.

 

A essência do pensamento cooperativista.

 

Temas em discussão.

 

Por que vocês não me deram uma pauta?

 

 

 

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Atriz Coragem

Maria Alice Vergueiro é um ícone do teatro brasileiro. Comemorando 40 anos de teatro em 2002, diz que seu presente foi o convite para protagonizar o espetáculo Mãe Coragem e Seus Filhos, de Brecht, ao lado de profissionais que estão fazendo com que se sinta "mais jovem que há 10 anos atrás". Está de volta aos palcos uma profissional que, apesar das dificuldades, sempre buscou no teatro o prazer do processo coletivo de trabalho. Com toda generosidade e encantamento que caracterizam as divas, ela falou à Camarim. Confira os principais trechos da entrevista.

 

Camarim: Maria Alice, 40 anos de teatro. Como foi que tudo começou?

Maria Alice Vergueiro: Às vezes, a impressão que eu tenho é que fiz teatro a vida inteira. Evidentemente, as pessoas que fazem carreira falam de quando se profissionalizaram, de quando fizeram uma opção de ser ator ou atriz. Eu estive sempre envolvida com teatro, desde pequena, porque minha família também é de teatro. O irmão de meu pai foi um dos fundadores do TBC. Meus primos são músicos e eu tive uma tia que foi de teatro de revista. Diante disso, eu já estava mais ou menos dentro do ambiente de teatro mas, para assumir realmente a profissão demorei um pouco, porque primeiro fui professora de teatro. Eu me formei em pedagogia pela USP em 65 e trabalhei num colégio estadual. Aí comecei a dar aula de teatro empiricamente, porque não havia nada aqui sobre isso. Comecei a importar livros e me tornei uma autodidata em teatro educacional. Essa experiência foi extremamente interessante, foi uma época muito criativa. Então o teatro profissional, propriamente como atriz, não estava me chamando. Eu estava mais interessada em coordenar e dirigir esses alunos. Depois eu fui professora da ECA. Fiquei lá até 79. Mais ou menos nesse período entrei no Oficina e o Zé Celso estava pra iniciar uma nova fase. O Living Theatre tinha passado por aqui e ele queria parar de fazer um teatro de quarta-parede. Ele já queria romper com isso. Já queria fazer o que está fazendo agora e teve muita dificuldade de começar. Fomos pra Portugal fazendo Galileu Galilei. Eu ainda era professora da USP e a reitoria não me deu licença pra sair do Brasil, mas eu fui de qualquer maneira. Estava muito desgostosa com a universidade. Estava achando tudo lá muito pouco criativo. Aí fui pra Portugal e perdi o lugar. Eu sabia disso. Sobretudo quando a gente tem contato com o Zé Celso, é preciso ser radical. E o Oficina foi pra mim um divisor de águas. Foi uma experiência fantástica o ano que fiquei em Portugal. Quando voltei, me sindicalizei: profissão, atriz. Me assumi realmente.

 

 

 

C: Quais foram os encontros pessoais e artísticos que você considera mais significativos no seu caminho?

MAV: O que eu sinto de importância fundamental na minha carreira foram os encontros. Aliás, como dizia o Vinícius, "A vida é a arte do encontro..." Meu encontro com Augusto Boal foi muito interessante, mas curto. Fiz A Mandrágora e pronto, saí. Mas já deu pra sentir no Boal um homem de pesquisa, um homem sólido. Tanto é que quando a gente se encontra tem aquela alegria de quem criou junto. A gente se reconhece. Com o Zé Celso o tempo foi maior. E mais intenso. O Brasil passava por uma época tão difícil que o fato de você se encontrar e tomar uma atitude de conjunto significava muita coisa. Depois, tive um encontro muito forte com o Luiz Alberto Galizia, que era aluno da ECA. Cacá Rosset foi meu aluno desde os 14 anos até chegarmos juntos na ECA, eu como professora e ele como aluno. Foi também um encontro forte. Nós três fundamos o Teatro do Ornintorrinco. Outro encontro muito interessante foi com o Luís Antônio Martinez Corrêa, com quem fiz O Casamento do Pequeno Burguês e A Ópera do Malandro. O Lucci (Luciano Chirolli) também foi pra mim um grande encontro. Com ele está durando muito e estamos crescendo juntos. Eu conheci o Lucci em Dom Pirlimplim com Belisa em seu Jardim, do Federico García Lorca. Fizemos uma turnê pela Europa. Também estivemos em Miami, Colômbia, Costa Rica, Espanha e o Lucci dando goleada como ator. Os encontros simultâneos com autores foram com Brecht, Lorca, Strindberg, Beckett. O meu encontro com Brecht foi uma coisa muito especial. Ele tinha uma coisa que eu gostava muito: o humor cáustico. Ele ria dele mesmo. Olhava o ser humano e percebia como somos falíveis. Como lutamos pra viver de uma maneira feliz, correta, e não conseguimos. Meu encontro com ele foi muito de solidariedade. Tive pena de não tê-lo conhecido pessoalmente.

 


Mãe Coragem


C: Você é uma atriz que sempre esteve diretamente ligada ao trabalho de grupo. Como aconteceu essa opção?

MAV: Antes de mais nada, essa é uma posição filosófica minha que hoje consigo identificar. Como empírica, eu ia simplesmente fazendo mas, de repente, percebi uma coerência. Hoje, com 40 anos de profissão, consigo fazer um levantamento e perceber uma coerência, mesmo que ela não tenha sido apriorística. Aliás, até prefiro que não seja, porque você vai se abrindo, se abrindo e vai vendo as suas tendências. Até como mãe, sempre fiz assembléia com meus filhos. Porque eu sempre tive horror de ser autoritária. De ser o pai que diz: faça o que eu mando e não faça o que eu faço. E quando eu falo em grupo, eu tenho medo de falar em grupo. Porque muitos grupos são autocratas. Presenciei trabalhos de grupo que, na verdade, eram falsos na medida em que muita gente se diluía no coletivo. É preferível dizer um time do que um grupo. O grupo, às vezes, fica viciado de relações familiares. Em muitos grupos de teatro você vê que existe uma vontade de uma vida mais livre. Aí viram um gueto fechado para o mundo e repetem os vícios das relações familiares. Muitos têm famílias diluídas e vão encontrar afeto ali. O que não é ruim mas também artisticamente não é bom. O ideal seria que você tivesse como buscar uma permissibilidade pra que todos pudessem experimentar-se. Muitas vezes, eu tive decepções com essa história de grupo mas, mesmo assim, não abandonei essa idéia. Um dos grandes momentos felizes da vida é quando você pode viver em comunidade.

 

 


No alvo (com Luciano Chirolli)

 

C: O que você acha do processo cooperativado na produção teatral?

MAV: Acho fantástico. Aliás é o que está acontecendo agora em Mãe Coragem. Nós não estamos dando nome aos bois e estou encantada. Parece que está sendo o meu prêmio. E assim, de repente. Porque formamos um elenco e estamos cooperativados sem dinheiro. Todos estão entrando com o capital trabalho. Até agora não saiu uma verba que vamos receber do governo e nem por isso deixamos de ter uma equipe maravilhosa. Dessa vez não foi um encontro com uma pessoa mas com muitas. Isso te libera. Há uma felicidade porque você admira o trabalho do outro, se inspira no trabalho do outro. O outro tem o que oferecer, troca com você. Quem tem experiência bota na roda e quem não tem experiência tem intuição. E daí você bebe dessa água. Pra mim, é o elixir da juventude. Eu, por exemplo, estou me sentindo agora mais jovem do que há 10 anos atrás.

 

C: Quem faz teatro sabe que as dificuldades financeiras são um problema recorrente. Como você buscou sustentação durante esses 40 anos, já que você sempre teve o palco como prioridade?

MAV: Em primeiro lugar, não vivo do teatro. Vivo com pouco, mas é com dinheiro da família. No tempo que eu era professora, tinha uma vida estável. Depois, sempre tive alguns bicos. Nunca fiz comercial também, muito pouco. Eu dava algumas aulas, alguns cursos, mas era confeito. Nunca fui cheia de vontades. Sempre gostei muito de viajar mas sempre viajei muito mais para festivais de teatro do que como turista. Viajar como turista é uma saco, com um grupo é uma delícia. Produção no tempo do Ornintorrinco o Cacá conseguia, porque ele tem muito jeito pra isso. Fora isso, todas as vezes em que eu banquei, não posso dizer que eu perdi dinheiro, porque era o mesmo que ter aplicado num curso, etc. Mas raramente tive dinheiro de volta. Isso não me preocupava, porque eu já sabia disso. Mas eu acho essa situação precária. Porque, na verdade, o que acontece? Sem dinheiro você não tem mídia. Não tem um teatro bom. São dificuldades com que eu sempre tive de lidar e que ainda preciso aprender. Porque o teatro é uma arte mista, não é só aquele momento que você está no palco. Como é que você faz teatro sem público? Agora estou aprendendo a lidar com a realidade. Porque não adianta você querer uma realidade fictícia. E não adianta se enojar dos meios de comunicação e produção.

 


O Doente Imaginário

 

C: Como foi sua experiência na Rede Globo?

MAV: O Sílvio de Abreu me encontrou numa estréia teatral e disse: vou escrever um papel pra você numa novela. Aí eu fiquei curiosa. Nunca tinha feito e não podia dizer: nunca fiz e não gostei. Pensei: vamos ver o que é isso, eu sou uma atriz. Quem sabe eu posso me divertir. As pessoas que viram gostaram mas eu achei que foi uma coisa morna. Eu não me senti feliz. Não me senti criando. Porque a novela tem suas características. Você nunca está ligada no todo. Hoje faz isso, amanhã aquilo, fica sabendo qual é a sua parte por semana e não tem tempo de construir papel nem nada. Sofri muito. Porque eu quis ir até o fim. Mudei para o Rio, fiquei onze meses lá... E é naturalista, todo mundo sentado numa cadeira e conversando na sala. Não me dei bem. Como atriz brechtiana, preciso estar ligada no todo, sou incapaz de ser apenas uma intérprete. E a televisão pede apenas um intérprete. Eu, na verdade, tenho que estar conivente com o autor. Tenho que saber o que estou falando. Isto é uma coisa difícil de se conseguir na televisão.

 

C: Conte um pouco sobre Mãe Coragem.

MAV: Antes do convite para fazer a peça, eu estava achando que o teatro já tinha terminado na minha vida. Sem nenhum ressentimento. Tinha achado que já estava bom. Depois de No Alvo, do Thomas Bernhard, que foi um sucesso interior muito grande, mas não correspondeu a um sucesso de público e sim de crítica, comecei a achar que realmente você não pode ser maior do que o seu país. Você é resultado de um cômputo geral. Mas quando fui convidada, reli o texto e achei extremamente interessante. Pensei que não perderia nada. E os Deuses começaram a se conjuminar de uma maneira muito forte. Foi uma coisa muito mágica e ao mesmo tempo muito simples. Eu, o Serginho (Ferrara) e o (Alberto) Guzik fizemos uma edição do Brecht. É uma versão de um vigor muito grande e que não esquece do humor, da sensualidade. A Guerra dos Trinta Anos é apenas nosso fundo de quadro pois nossa Mãe Coragem vive o dia-a-dia, o aqui-agora. É uma anti-heroína que vive da guerra como biscate, mas que se parece com as nossas mulheres do morro, as mães de detentos. Mulheres que têm filhos presos e saem nas escolas de samba. São sensuais até. Estou muito alegre com o trabalho e, pra mim, alegria é a prova dos nove.

 

C: Que conselhos você daria para quem está começando?

MAV: Acho que nesse caso, por incrível que pareça, os jovens sabem mais do que eu. Porque eu tive nesse meu percurso uma zona muito ingênua, inocente, até alienada. Porque se eu não sabia lidar com mídia, lidar com grana, o que eu posso ensinar pra essa turma? A ser idealista, fazer teatro nas garagens, na rua? O teatro é uma arte do aqui-agora. No teatro, o mínimo que você precisa, mesmo que fale individualmente, é de um público. E um público anônimo, não um público de gueto. Porque senão você faz peças comunistas para comunistas, peças feministas para feministas, convida os amigos e fala: a casa estava cheia. Só que fica uma semana em cartaz. O ideal seria que você fizesse um teatro onde tivesse crianças, adultos, estudantes, jovens. Isso seria o ideal.


por André Corrêa

 

 

 

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