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Departamento de Incêndio

Atriz, coreógrafa, diretora, escritora e produtora: Renata Melo.

 

O trabalho do ator em eventos empresariais.

 

Esclarecimentos sobre a emissão de nossa Certidão Negativa.

 

Sobre amigos, polêmicas e desesperança.

 

 

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Sobre amigos, polêmicas e desesperança

 

E o Mainardi resolveu falar, e a rapaziada ficou incomodada. Eu tô falando daquele artigo que saiu na "Veja", em que o articulista da referida revista, na pretensão de alfinetar Dona Suplicy, acabou por beliscar de leve certas gordurinhas localizadas que ele julgou ter na classe teatral, que emputecida entupiu nossos e-mails com réplicas e reclamações que julgavam mais que justificadas. Eu aqui, na minha lendária insignificância de articulista-mirim, boquiabertamente abismado, só tenho que concluir, como diria Mr. Shakespeare, que foi muito barulho por nada, de ambas as partes. Afinal quem é Diogo Mainardi? Um cara que queria ser Paulo Francis quando crescesse. Ele cresceu, e ficou sendo só o tal do Mainardi, escritor mais comentado que lido, irmão de cineasta, filho de publicitário e quase um veneziano juramentado. Mas assim como Francis, ele tem a mania de querer assuntar sobre tudo com uma pretensa erudição que obviamente não possui. Francis fazia isso e muitas vezes era patético. Mas havia um diferencial gritante. Francis era engraçado. A gente discordava de 90% do que ele falava, mas não deixava de achar engraçado sua arrogância enaltecida pela fala monocórdia e fastidiosamente imitável. Francis era ótimo. E Mainardi? Bom, esse não tem humor nenhum, o que o coloca na vala comum dos terroristas literários, sempre atrás de uma polêmica, esperando que cartas de leitores abarrotem as redações de suas revistas. Ele tem talento? Claro que sim. Escreve bem? É inegável. Mas tinha mais era que relaxar, descer num terreiro e pedir pro fantasma encostão do Francis dar um rolê, assim como a classe teatral que se acha intocável e se ofende com qualquer bobagem proferida também tinha mais era que relaxar. A fila tá andando, segue aí e fica na encolha, como diria Plínio Marcos. Já falei demais do Mainardi. Acho que também tô dando muita importância pra ele. Vamos falar do meu amigo Márcio, que vocês com certeza não devem conhecer. Me parece mais que oportuno falar sobre ele no momento. Márcio era um cara que escrevia textos para teatro. Éramos ambos adolescentes, cheios de esperança, pretenso talento e um inconformismo filho-da-puta que nos golpeava no estômago sempre que acordávamos ressacados e quase felizes, lá na longínqua Londrina, no Norte do Paraná. A gente competia, no melhor sentido possível. Se eu escrevia um texto, ele tinha, meio que por obrigação, que escrever um melhor. Saudável competitividade. Márcio era no mínimo genial, e me obrigava a sair de minha indolência bêbada e fazia com que eu me sentasse diante da velha Olivetti e conclamasse os fantasmas todos que rondavam a vizinhança. O resto do tempo a gente ficava pelo centro da cidade falando de literatura, teatro, olhando as bundas das garotas e esvaziando garrafas de vinho barato. Márcio era o tipo de amigo indispensável e fundamental. Muitos anos se passaram. Eu vim pra São Paulo, continuo escrevendo alguns textos, continuo perturbado e ainda não aposentei meus fantasmas de estimação. E o Márcio? Continua sendo meu amigo. Dia desses apareceu por aqui, assistiu uma das peças de nossa Mostra e saiu para beber comigo. Continua brilhante em suas observações. Perspicaz e arguto, como sempre. Mas e o texto? Ele tá escrevendo para o programa do Sérgio Mallandro. Há anos ganha a vida escrevendo e atuando nesse negócio que chamam de teatro-empresa. Posso parecer ingênuo, mas acho que há várias maneiras de morrer, eu conheço algumas. Márcio continua sendo meu amigo, dos mais queridos, mas não me parece mais tão fundamental. Corroído por uma dor letal, levanto da frente do computador e olho pela janela, quase que desesperançado.


por Mário Bortolotto


 

 

 

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