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Entrevista / Renata Melo

Atriz, coreógrafa, diretora, escritora e produtora: Renata Melo.

 

O trabalho do ator em eventos empresariais.

 

Esclarecimentos sobre a emissão de nossa Certidão Negativa.

 

Sobre amigos, polêmicas e desesperança.

 

 

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Quando o mínimo diz mais

 

Renata Melo é o que podemos chamar de uma artista polivalente. Depois de ter fundado a companhia de dança Marzipan, onde atuou durante 10 anos como coreógrafa, bailarina, diretora, escritora e produtora, ela levou toda essa bagagem para o teatro. E presenteou o público com espetáculos como Slices of Life, Bonita Lampião, Domésticas e Passatempo, trabalhos caracterizados pela profunda pesquisa dramatúrgica e corporal. Confira sua entrevista para a Camarim.

Camarim: Renata, como foi o início de sua trajetória no teatro?
Renata Melo: Na verdade, tudo começou com a dança. Quando era criança, gostava muito de praticar esporte, competia pela minha cidade. Sou de Assis, interior de São Paulo, e sempre tive muita facilidade corporal devido a essa prática. Quando vim pra São Paulo pra fazer cursinho e, depois, faculdade de Odontologia, comecei a ter aula de dança em academias. Não pude continuar porque a escola era muito puxada, eu estudava o dia inteiro. Alguns anos mais tarde, perto de me formar, voltei a fazer aulas e tive muita sorte de cair na mão de ótimos professores, que foram me conduzindo para técnicas mais ousadas e pra professores mais especializados. Eu tinha muita facilidade e acabei me desenvolvendo super rápido tecnicamente. Fiz uma audição para um espetáculo da Célia Gouvêa e passei, mesmo dançando há pouco tempo. Não pude fazer o trabalho porque já estava com um consultório, mas percebi que tinha uma chance profissional nessa área. Resolvi montar uma companhia de dança, o grupo Marzipan, que atuou muito na década de 80 e que foi muito representativo dentro da dança moderna, contemporânea. Achei que não tinha técnica de balé suficiente para entrar em qualquer companhia de dança do mercado, então preferi montar a minha. Como já tinha muitas idéias de montagens de espetáculos, comecei a coreografar. Durante esses 10 anos fiz grande parte do trabalho coreográfico da companhia e, dentro do Marzipan, começou a aparecer um potencial teatral e dramatúrgico. Já éramos conhecidos como um grupo que não era especificamente de dança. Tínhamos uma leve abordagem em cima de personagens, de situações dramáticas. Quando o grupo se dissolveu, cada um foi fazer uma coisa e eu resolvi desenvolver meu próprio trabalho. Foi aí que comecei a me encaminhar, cada vez mais, pra área de teatro mesmo. Fiz um espetáculo solo, o Slices of Life, com direção da Beth Lopes e acabei fazendo uma substituição numa peça dela, O Cobrador. Depois, montei o Bonita Lampião e acho que fui descobrindo efetivamente minha linguagem de teatro-dança que aprofundei em Domésticas e Passatempo. Então, meu teatro tem hoje uma definição, uma linguagem em cima de dança-teatro, mas que vem especificamente da dança. Foi mais ou menos esse o meu trajeto.

 

C: Você já ganhou muitos prêmios com seus trabalhos. Quais foram?
RM: Com o Marzipan, recebemos vários prêmios, entre eles, o de melhor grupo de dança. Recebi também de melhor coreografia e melhor roteiro. O Bonita Lampião foi um espetáculo que recebeu muitos prêmios. Não lembro exatamente, mas sei que recebemos APCA, Shell, Molière, acho que em sua última edição, e APETESP em várias categorias. Tive prêmio de coreografia, de melhor espetáculo, de figurino, de cenário, de trilha sonora, prêmio pela pesquisa por tratar de um tema brasileiro. Com Domésticas a gente não ganhou tantos prêmios, foram mais indicações. De prêmio mesmo, foi só o de figurino da Daniela Thomas.

C: Como foi o processo de criação da peça e do longa-metragem Domésticas?
RM: Eu sempre fui uma pessoa que adorava ouvir histórias. Coleciono, gosto de contar, e uma fonte de alimento para essa histórias foram as empregadas domésticas. Lembro que, na minha infância, meus pais trabalhavam fora e fui criada com empregadas que ficavam muito tempo na nossa casa. Depois, mudando pra São Paulo, sempre tive empregadas que marcaram muito a minha vida. E sempre cheias de histórias. Pensando nisso, tive a idéia de fazer um espetáculo com esse tema. Resolvi colocar um olhar mais profundo e íntimo na empregada doméstica, um outro lado. Como ela vive, como é sua relação com a família, com o marido, com os filhos. Como é a vida da empregada doméstica fora da casa do patrão. A pesquisa foi toda direcionada nesse sentido. Essa é a ousadia da pesquisa e do projeto. Acho que o trabalho acabou conquistando muito a opinião pública exatamente por essa visão mais real, mais verdadeira. Pra fazer esse trabalho, eu realmente fiz uma pesquisa muito longa. Fui ao Sindicato das Domésticas por muito tempo entrevistar as empregadas. Também entrevistei empregadas de vizinhos, da minha casa, dos amigos, até ter material suficiente para fazer um espetáculo. No fim, acho que dava pra fazer uns 5. Quando a peça estava em cartaz, o Fernando Meirelles, diretor do filme, foi assistir e ficou super interessado em fazer um longa. Ele achava que a coisa já estava relativamente pronta, era só filmar. Achou que seria uma coisa mais simples do que na verdade foi. Ele me chamou a uma reunião pra saber se eu teria interesse em participar do projeto ou se eu queria vender os direitos. Acabei me interessando e escrevemos juntos o roteiro do filme. Eu, ele, o Nando Olival (também diretor do filme) e a Cecília Homem de Melo. Quando começamos a escrever, percebemos que não seria tão simples. O espetáculo foi feito muito em cima de um tratamento coreográfico, que dava uma plasticidade, uma estética muito forte pra peça mas, em termos de características de personagens, não aprofundava muito. Esse trabalho teve que ser feito. De 20 personagens, elegemos alguns com potencial mais forte pra desenvolver e criamos uma história mais detalhada para cada um deles. A relação da peça com o filme foi mais ou menos assim.

C: Nos seus trabalhos, muitas vezes você acumulou as funções de atriz, coreógrafa, diretora, escritora e produtora. Como desenvolveu essa capacidade?
RM: Acho difícil dizer que tenho todas essas profissões. Na verdade, não é bem assim. Tenho uma facilidade, uma tendência de ser intérprete, bailarina e coreógrafa. E quando comecei a fazer espetáculos frutos de uma pesquisa mais aprofundada, achei que seria complicado chamar outras pessoas para escrever os textos. Mesmo tendo o registro em fitas, a convivência não se passa. Decidi começar a escrever com a sensibilidade que eu tinha desse contato. Na verdade, não é que eu saiba escrever. Sei escrever sobre aquilo que pesquiso. Já aconteceu de alguém querer me encomendar um texto porque gosta do meu trabalho, mas eu nunca aceitei. Sempre escrevi em função de fazer meu próprio trabalho. Meu lado produtora vem um pouco da herança de trabalhar com o Marzipan. Durante 10 anos a gente realmente fazia tudo. Esse aprendizado vem da própria experiência. Hoje, tenho uma produtora que fez o Bonita Lampião comigo, a Amália Taralo. É ela quem organiza tudo, que vai atrás de leis, patrocínios, etc.

C: Além da sua atividade artística, você também trabalha como dentista. É difícil administrar as duas profissões?
RM: Até um tempo atrás, isso era uma coisa complicada pra mim. Achava que uma hora ia ter que decidir largar uma das duas. Isso acontece com muita gente. Atualmente, acho que uma profissão completa a outra. Na odontologia, tenho um trabalho mais recluso, mais individual, que é importante pra mim. No trabalho artístico, tem aquela coisa de ter um monte de gente, trabalho de equipe, que ao mesmo tempo que te alimenta, te instiga, também te desgasta. Acho a odontologia uma profissão muito artística, embora as pessoas não vejam muito por esse lado. Comecei a me organizar de uma maneira que eu possa manter as duas. E, hoje, não vivo só da profissão de artista, preciso da odontologia. Nesse sentido, também é um complemento.

C: O que dizer a quem está começando no teatro?
RM: Acho que atualmente as coisas estão bastante diferentes da época em que eu comecei. O mercado é muito mais difícil, a concorrência é bem maior. Pra mim, o mais importante é se paramentar, é ter as ferramentas pra entrar no mercado. Então, acho que é preciso estudar, fazer escola, cursos. A profissão é feita muito em cima de relações, de estar em contato com a pessoa certa no momento certo, mas pra isso tem que ter conhecimento. Tem que trabalhar corpo, voz, ter, no mínimo, uma formação de escola para, depois, ir se aprimorando.

C: Que planos você tem agora?
RM: Às vezes, tem uma categoria que a gente atinge que não é nem a de uma pessoa que está começando e nem a de alguém super conhecido pela mídia. É um patamar difícil de lidar. Porque quando mando projetos pra Secretaria de Cultura, eles acham que posso conseguir patrocínio e não ajudam o projeto. E o patrocinador acha que não sou tão famosa a ponto de receber o apoio. É uma fase um pouco complicada. Isso porque acabei de saber que não ganhei o Fomento de Teatro. Por outro lado, sei que tem outras pessoas que nunca ganharam e eu já ganhei. Tenho um projeto de montar um espetáculo, que minha irmã (Patrícia Melo) escreveu pra mim, chamado A Caixa. Esse projeto não ganhou o Fomento então tentaremos conseguir patrocínio. Em Setembro, estou em cartaz no Centro Cultural de São Paulo com o Passatempo e depois vamos para o Rio de Janeiro. Agora, entrei com o projeto Ruídos do Corpo na Bolsa Vitae. A idéia é pegar todas as nossas manifestações sonoras como a tosse, o soluço, o arroto, o pum, o bocejo, e fazer uma pesquisa do trajeto desses ruídos no corpo mesmo. Uma coisa que eu nunca fiz. Nos meus trabalhos, o corpo está sempre a serviço de um personagem. Nesse projeto, quero fazer ao contrário, descobrir primeiro o trabalho corporal e ver como a gente consegue construir um roteiro dramatúrgico em cima desse potencial. Estou procurando cada vez mais a síntese, que também é a busca do meu trabalho corporal. Descobrir sempre a síntese do movimento, quando o mínimo diz mais. Esse é o meu caminho.

 

por André Corrêa

 

 

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