C:
Você já ganhou muitos prêmios com seus trabalhos. Quais
foram?
RM: Com o Marzipan, recebemos vários
prêmios, entre eles, o de melhor grupo de dança. Recebi também
de melhor coreografia e melhor roteiro. O Bonita Lampião foi um espetáculo
que recebeu muitos prêmios. Não lembro exatamente, mas sei
que recebemos APCA, Shell, Molière, acho que em sua última
edição, e APETESP em várias categorias. Tive prêmio
de coreografia, de melhor espetáculo, de figurino, de cenário,
de trilha sonora, prêmio pela pesquisa por tratar de um tema brasileiro.
Com Domésticas a gente não ganhou tantos prêmios, foram
mais indicações. De prêmio mesmo, foi só o de
figurino da Daniela Thomas.
C:
Como foi o processo
de criação da peça e do longa-metragem Domésticas?
RM: Eu sempre fui uma pessoa que adorava
ouvir histórias. Coleciono, gosto de contar, e uma fonte de alimento
para essa histórias foram as empregadas domésticas. Lembro
que, na minha infância, meus pais trabalhavam fora e fui criada
com empregadas que ficavam muito tempo na nossa casa. Depois, mudando
pra São Paulo, sempre tive empregadas que marcaram muito a minha
vida. E sempre cheias de histórias. Pensando nisso, tive a idéia
de fazer um espetáculo com esse tema. Resolvi colocar um olhar
mais profundo e íntimo na empregada doméstica, um outro
lado. Como ela vive, como é sua relação com a família,
com o marido, com os filhos. Como é a vida da empregada doméstica
fora da casa do patrão. A pesquisa foi toda direcionada nesse sentido.
Essa é a ousadia da pesquisa e do projeto. Acho que o trabalho
acabou conquistando muito a opinião pública exatamente por
essa visão mais real, mais verdadeira. Pra fazer esse trabalho,
eu realmente fiz uma pesquisa muito longa. Fui ao Sindicato das Domésticas
por muito tempo entrevistar as empregadas. Também entrevistei empregadas
de vizinhos, da minha casa, dos amigos, até ter material suficiente
para fazer um espetáculo. No fim, acho que dava pra fazer uns 5.
Quando a peça estava em cartaz, o Fernando Meirelles, diretor do
filme, foi assistir e ficou super interessado em fazer um longa. Ele achava
que a coisa já estava relativamente pronta, era só filmar.
Achou que seria uma coisa mais simples do que na verdade foi. Ele me chamou
a uma reunião pra saber se eu teria interesse em participar do
projeto ou se eu queria vender os direitos. Acabei me interessando e escrevemos
juntos o roteiro do filme. Eu, ele, o Nando Olival (também diretor
do filme) e a Cecília Homem de Melo. Quando começamos a
escrever, percebemos que não seria tão simples. O espetáculo
foi feito muito em cima de um tratamento coreográfico, que dava
uma plasticidade, uma estética muito forte pra peça mas,
em termos de características de personagens, não aprofundava
muito. Esse trabalho teve que ser feito. De 20 personagens, elegemos alguns
com potencial mais forte pra desenvolver e criamos uma história
mais detalhada para cada um deles. A relação da peça
com o filme foi mais ou menos assim.

C:
Nos seus trabalhos, muitas vezes você acumulou as funções
de atriz, coreógrafa, diretora, escritora e produtora. Como desenvolveu
essa capacidade?
RM: Acho difícil dizer que tenho todas
essas profissões. Na verdade, não é bem assim. Tenho
uma facilidade, uma tendência de ser intérprete, bailarina
e coreógrafa. E quando comecei a fazer espetáculos frutos
de uma pesquisa mais aprofundada, achei que seria complicado chamar outras
pessoas para escrever os textos. Mesmo tendo o registro em fitas, a convivência
não se passa. Decidi começar a escrever com a sensibilidade
que eu tinha desse contato. Na verdade, não é que eu saiba
escrever. Sei escrever sobre aquilo que pesquiso. Já aconteceu
de alguém querer me encomendar um texto porque gosta do meu trabalho,
mas eu nunca aceitei. Sempre escrevi em função de fazer
meu próprio trabalho. Meu lado produtora vem um pouco da herança
de trabalhar com o Marzipan. Durante 10 anos a gente realmente fazia tudo.
Esse aprendizado vem da própria experiência. Hoje, tenho
uma produtora que fez o Bonita Lampião comigo, a Amália
Taralo. É ela quem organiza tudo, que vai atrás de leis,
patrocínios, etc.
C:
Além da sua atividade artística, você também
trabalha como dentista. É difícil administrar as duas profissões?
RM: Até um tempo atrás, isso
era uma coisa complicada pra mim. Achava que uma hora ia ter que decidir
largar uma das duas. Isso acontece com muita gente. Atualmente, acho que
uma profissão completa a outra. Na odontologia, tenho um trabalho
mais recluso, mais individual, que é importante pra mim. No trabalho
artístico, tem aquela coisa de ter um monte de gente, trabalho
de equipe, que ao mesmo tempo que te alimenta, te instiga, também
te desgasta. Acho a odontologia uma profissão muito artística,
embora as pessoas não vejam muito por esse lado. Comecei a me organizar
de uma maneira que eu possa manter as duas. E, hoje, não vivo só
da profissão de artista, preciso da odontologia. Nesse sentido,
também é um complemento.
C:
O que dizer a quem está começando no teatro?
RM: Acho que atualmente as coisas estão
bastante diferentes da época em que eu comecei. O mercado é
muito mais difícil, a concorrência é bem maior. Pra
mim, o mais importante é se paramentar, é ter as ferramentas
pra entrar no mercado. Então, acho que é preciso estudar,
fazer escola, cursos. A profissão é feita muito em cima
de relações, de estar em contato com a pessoa certa no momento
certo, mas pra isso tem que ter conhecimento. Tem que trabalhar corpo,
voz, ter, no mínimo, uma formação de escola para,
depois, ir se aprimorando.
C:
Que planos você tem agora?
RM: Às vezes, tem uma categoria que
a gente atinge que não é nem a de uma pessoa que está
começando e nem a de alguém super conhecido pela mídia.
É um patamar difícil de lidar. Porque quando mando projetos
pra Secretaria de Cultura, eles acham que posso conseguir patrocínio
e não ajudam o projeto. E o patrocinador acha que não sou
tão famosa a ponto de receber o apoio. É uma fase um pouco
complicada. Isso porque acabei de saber que não ganhei o Fomento
de Teatro. Por outro lado, sei que tem outras pessoas que nunca ganharam
e eu já ganhei. Tenho um projeto de montar um espetáculo,
que minha irmã (Patrícia Melo) escreveu pra mim, chamado
A Caixa. Esse projeto não ganhou o Fomento então tentaremos
conseguir patrocínio. Em Setembro, estou em cartaz no Centro Cultural
de São Paulo com o Passatempo e depois vamos para o Rio de Janeiro.
Agora, entrei com o projeto Ruídos do Corpo na Bolsa Vitae. A idéia
é pegar todas as nossas manifestações sonoras como
a tosse, o soluço, o arroto, o pum, o bocejo, e fazer uma pesquisa
do trajeto desses ruídos no corpo mesmo. Uma coisa que eu nunca
fiz. Nos meus trabalhos, o corpo está sempre a serviço de
um personagem. Nesse projeto, quero fazer ao contrário, descobrir
primeiro o trabalho corporal e ver como a gente consegue construir um
roteiro dramatúrgico em cima desse potencial. Estou procurando
cada vez mais a síntese, que também é a busca do
meu trabalho corporal. Descobrir sempre a síntese do movimento,
quando o mínimo diz mais. Esse é o meu caminho.
por
André Corrêa
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