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Sempre a Mesma Ladainha, Santa Maria Clara !"

 

Sempre que alguma instituição ou grupo teatral ou associação ou sei lá o quê resolve promover um debate cultural e inclui na mesa de palestrantes um jornalista e crítico de teatro infantil, é batata, com o perdão do termo antiquado. A platéia - formada por representantes da batalhadora classe teatral que produz arte para crianças e jovens - transforma o encontro em desabafo, desopila o fígado, faz terapia de grupo, esbravejando com convicção: a culpa é da imprensa!

Culpa do quê? Explica-se: os produtores, diretores, atores de teatro infantil, em sua maioria, sempre acham que sua arte vive na marginalidade, desprestigiada e pouco patrocinada, por culpa da imprensa, que não dá espaço suficiente nos jornais. O debate pode ter o tema que for, pretender discutir sexo dos anjos e descobrir pêlo em ovo, não importa: o assunto se desvia imediatamente para essa ladainha da falta de espaço nos jornais.

Já não está na hora de começar a aprofundar mais questões significativas do fazer teatral? Que tal começar a discutir o básico? Qual o conceito que cada um tem de criança? O que se quer atingir quando se produz uma peça de teatro de olho na platéia mirim? O que há de responsabilidade e o que há de prazer em fazer esse tipo de arte com faixa etária definida? Que valores são mais urgentes hoje de serem abordados numa peça infantil? São infinitas as questões e estou citando só algumas que poderiam servir de início para a elaboração de um pensamento mais consistente e profundo. Mas, não. Todos preferem mesmo é gastar minutos intermináveis do debate para as lamúrias da falta de espaço nos jornais.

Ok. Podemos continuar assim. É mais cômodo para todo mundo, inclusive para os críticos. Ninguém precisa pensar, ninguém precisa estudar, ninguém precisa pesquisar, ninguém precisa elaborar nada de nada de nada. Basta acusar, pôr a culpa, denunciar, se fazer de vítima. Até quando?

Quando participo desses debates, costumo dizer sempre a mesma coisa e argumentar sempre do mesmo jeito (não falei que era cômodo?): façam um espetáculo digno, sério, competente, talentoso e criativo, e aí com certeza terão, sim, espaço nos jornais. É simples assim. Cristalino. Diante da crise orçamentária e de papel, que assola as redações e faz os jornalistas viverem a angústia de jogar pautas pela janela, por real e concreta falta de espaço nos cadernos de cultura, diante dessa situação, a atitude de todos os jornais tem sido parecida: dão espaço só para o teatro infantil realmente de qualidade. Ficou impossível conseguir contemplar todas as montagens, isso é verdade. Mas faça com qualidade e seu lugar estará garantido.

Não há jornalistas bichos-papões que são contra teatro infantil por princípio. Não há. Todos os jornais, mais dia, menos dia (pode não ser na estréia, pode ser no último dia da temporada, não importa), todos os jornais publicam textos sobre peças de teatro infantil produzidas com um mínimo de qualidade. Não queira exigir espaço sem oferecer em troca criatividade, inteligência, talento. A concorrência com as outras artes é, de fato, grande. Faça alguma coisa para melhorar a sua produção e a contrapartida de aceitação dos jornais virá como conseqüência ou, pelo menos, exigirá menor esforço de sua parte. E lembre-se: Nunca subestime o público, que é muito exigente. Se sua peça for ruim, não adianta sair no jornal todo dia: não haverá público e ponto.

Então, por que, Santo Deus, todos insistem na mesma ladainha? Por que, Santo Piolim, todos sonham com tijolinhos de roteiros e guias, como se esses fossem a salvação do setor? Por que, Santa Maria Clara, todos querem consertar as deficiências de suas produções por meio das letrinhas impressas em jornal? A culpa não é da imprensa. Há toda uma conjuntura muito ampla que transforma essa situação num círculo vicioso: produtores não conseguem patrocínio; patrocinadores não querem investir no teatro sem bilheteria garantida; bilheteria rende pouco porque não há qualidade; se não há qualidade, a imprensa ignora; se a imprensa ignora, os patrocinadores não se interessam... Pronto, fecha-se o círculo.E os encontros sobre teatro infantil serão sempre um reflexo desse mesmo círculo vicioso. Se o nível dos debates sobre teatro infantil não melhorar, o nível das peças de teatro também não melhora e o nível das críticas teatrais idem. Fica todo mundo raso, todo mundo olhando para o próprio umbigo, sem haver um verdadeiro intercâmbio, uma proveitosa troca de informações entre palestrantes e platéia. Vamos tratar criança com inteligência, vamos nos tratar com inteligência. Vamos parar de repetir fórmulas, vomitar ladainhas e perpetuar culpas, que só servem para evitar que se enfrente verdadeiramente a crise, a inegável crise, a solapante crise, a dura e triste crise do setor.

 

* Dib Carneiro Neto é jornalista, editor do 'Caderno 2' do Estadão, crítico de teatro infantil, jurado do Prêmio APCA de teatro infantil e do Prêmio Coca-Cola Femsa (ex-Panamco) de teatro jovem, além de ser autor do livro 'Pecinha É a Vovozinha', recém-lançado pelo editora DBAIr para a rua, fazer teatro para a rua é assumir um compromisso "público", que deveria levar cada artista a pensar no significado dessa responsabilidade. Porque se encontramos na rua uma série de cidadãos para os quais podemos negar o estatuto de artistas, também encontramos milhares de transeuntes que nos podem negar o estatuto de cidadãos. Isso há que se pensar quando nos colocamos em frente ao computador para escrever um texto para o teatro feito ao ar livre, na rua.

 

por Dib Carneiro Neto*

 

 

 

 

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