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"Conversa de Algumas Horas e Muitos Anos"

 

A dramaturgia tem de atender ao momento da sociedade? À moda? Às regras ditadas pelos estímulos físico/sensoriais a que as crianças são submetidas hoje? Ao cinema? À TV? Ou você acha que ela tem de se contrapor a isso tudo?

Talvez nem uma coisa nem outra. O artista tem de seguir o seu fluxo interno.

Esse fluxo interno a que você se refere pode ser uma "criança interior"?

Perfeitamente. Você definiu melhor que eu.

Então você tem uma criança interior que lhe orienta...?

Tenho. Mas isso não é privilégio meu, todo mundo tem uma criança interior. É só querer dispor dela. Somos adultos hoje, mas a criança que fomos permanece dentro de nós. É coisa que não dá pra jogar fora e pronto. O que acontece é que em algumas pessoas ela aparece mais nitidamente, em outras quase não dá pra ver. Deveríamos cultivá-la mais, pra que ela morra menos dentro de nós.

Por quê?

Porque ela é responsável pelo nosso olhar sem preconceito. Ela não está impregnada de vícios ou rancores. Ela olha, não julga... E só ela é capaz de nos fazer ver a vida, a cada dia, como se estivéssemos fazendo uma grande descoberta.

E quanto aos temas que se mostra à criança? Você acha que existem restrições quanto aos temas?

Tenho quase certeza que não. Talvez, se for um assunto muito específico mesmo. Não me ocorre no momento nenhum exemplo. O que deve ser diferente, com certeza, é a forma de tratá-los. A diferença está no tratamento que se dá aos temas mais delicados, difíceis ou complexos, digamos. A criança reage mais à emoção, não tem ainda o canal do intelecto apto para digerir certos conteúdos. Agora, emocionalmente, tem sim. Nesse sentido somos exatamente iguais, crianças e adultos. Embora a gente sabe que sabe mais, e isso de certa forma é verdade, diante da dor nos igualamos. Em diferentes níveis, porém iguais.

Portanto, os símbolos e as metáforas são muito bem-vindos. A música, a luz, tudo que seja visual ajuda a "empurrar" um tema que mal colocado pode ser rejeitado pela criança.

Você acha então que as grandes idéias, quando bem colocadas, fazem mais sucesso que os tombos dos palhacinhos?

Não, não disse isso. Tombos de palhaço sempre são bem recebidos.

São quase imbatíveis.

O mérito está em apresentar temas mais profundos, às vezes até dolorosos e conseguir ser bem recebido também. Ai é que reside o mérito. O que significa, em que palavras, que o teatro pode ir além do mero entretenimento.

O teatro pode e deve alçar maiores vôos na tentativa de ajudar o homem a encontrar significados para a sua vida. Principalmente quando esse homem é uma criança. Essa é a função do teatro que eu acredito e procuro fazer.

O grande equívoco de toda a sociedade e sobretudo de quem faz teatro para crianças, deixando de lado os caça-níqueis que só querem ganhar dinheiro, que a gente já sabe, é que procuram afastar a criança da dor. Poupá-la do impalpável. Distraí-la dos problemas ao invés de ajudá-la a lidar com eles, com a dificuldade de viver. Afastá-la das coisas ruins, ao invés de fazer com que ela aceite e conviva melhor com a sua (nossa) natureza complexa, paradoxal e problemática, e não se deixar abater por isso.

Essas coisas bonitas que você fala têm uma fonte?

Tem. Bruno Bettelhein, um psicanalista austríaco, que viveu nos Estados Unidos e escreveu "A psicanálise dos contos de fada".

 

por Vladimir Capella

 

 

 

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