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Teatro
Infanto-juvenil e Impresa
Mônica - Eu queria dizer que na minha atividade como crítica, eu não tenho espaço para escrever, essa é minha principal dificuldade. Gostem ou não, eu própria goste ou não, eu tenho que julgar e avaliar. É isso que distingue a resenha do jornal de uma resenha de um veículo especializado. Para você fazer um texto bem-feito desses, tem que ter um espaço mínimo. Às vezes eu acerto, num espaço pequeno, escrever bem. Às vezes a gente escreve parte do que deveria ser a nossa obrigação escrever. O Harold Bloom diz que a crítica literária (e eu estendo isso para a crítica de teatro) entra em crise quando a literatura está em crise. Ora, à medida que o teatro infantil e infanto-juvenil impõe qualidade, a crítica vai crescer junto. Revista Camarim: Em que estágio você acha que está o teatro infantil hoje? Mônica: Eu acho que está mais ou menos. Vladimir: Se a qualidade do teatro infantil melhorasse, o espaço no jornal melhoraria? Mônica: Sim. Eu tenho certeza disso. Ilo: O Ferreira Gullar falava que não se pode fazer uma crítica sem primeiro saber quem fez a obra de arte. O Ian Michalski e a Ana Maria Machado faziam muita crítica, antes de estrear um espetáculo, eles iam em alguns ensaios, conversavam com o autor, com os atores, assistiam aos espetáculo e depois faziam a crítica. O jornal não nos dá nada, então a gente procura se vitalizar, sei lá de que forma, correndo atrás da venda de espetáculos, porque essa é a história. Agora não sei se, o teatro melhorando, os jornais vão abrir (espaço). Eu sou meio cético. Mônica: Isso é um aspecto, mas não é só isso. Às vezes surge, por exemplo, um trabalho aqui ou ali, maravilhoso, e que a população já está começando, independente da avaliação do jornal, ver. Aí mudam-se os papéis. O jornal vai correr atrás dessa manifestação, desse fenômeno. Porque o jornal não tem essa onipotência toda. O bom espetáculo vai levar o jornal atrás das pessoas. Pamela: O que acontece é que volta o problema das companhias usarem essa crítica, esse comentário, para vender. Por outro lado, é uma pessoa para cobrir duzentos espetáculos por ano, então não se acompanha todo mundo. Mas também a gente pega uma crítica e não tem uma análise, de como é a peça, o figurino, a iluminação, qual é a proposta do grupo, qual é o histórico. A pessoa que lê, que não é da classe, se pergunta de que se trata a peça. Henrique: Acho que do nosso lado, todo mundo aqui almeja outro tipo de relação com a crítica e com o jornal, que seria mais uma relação de parceria com o que é bom. Para a gente mudar o estigma do produtor. Porque você abre o jornal, o Guia da Folha, e tem lá vinte, trinta peças e, dessas, oito são de excelentíssima qualidade. E vinte e duas ruins. Não quero tirar o espaço de quem está começando, mas acho que ao invés de escrever uma crítica de quatro parágrafos a cada sexta-feira, se poderia se fazer um trabalho consistente em relação a um espetáculo que seja muito acima da média. Não sei se isso é possível do ponto de vista do jornal. Acho que tem coisas aqui no Brasil que são muito acima da média.
Antonio: Foi dito que a crítica não tem força junto ao público. Mas quando sai crítica na sexta, no sábado o teatro lota. E tem essa coisa de dar estrelas para os espetáculos, quando sai quatro estrelinhas, sua peça lota. E nosso público não se resume só a bilheteria, (veja) a força que tem nas escolas. Você vai com o material com quatro estrelas, todas as portas se abrem. Ilo:
Se há cadernos de literatura, porque não há cadernos
de teatro?
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Teatro para Crianças Simone: A gente começou o trabalho a partir de histórias de tradição oral, essa foi nossa relação, nosso vínculo com a criança. A partir daí começamos a montar espetáculos e desenvolver nossa produção. É até engraçado falar teatro infantil, para não infantilizar o nosso teatro. É o teatro para crianças. É bem difícil, você tem que ter uma proposta muito séria e cada passo ser um passo muito ligado a você ao que você acredita com relação à criança, à sua proposta de vida.
Kelly: O CPTIJ (Centro Paulista de Teatro para Infância e Juventude) já fez um seminário interno. E uma das primeiras coisas que se discutiu foi o porque fazer teatro para criança, se existe uma temática, falando sobre dramaturgia. E nesse seminário, uma das conclusões a que a gente chegou é que se fala sobre as questões essenciais do ser humano quando se faz teatro. Independentemente de qual idade o público tenha. Henrique: Eu sempre fui contra essa história de dizer que teatro infantil é formação do público para o futuro. Não é. A criança é um ser humano, em determinado estágio da sua vida, e tem que ir lá para curtir, como criança, agora. E não como se faz, a maioria das pessoas que trabalham com produção, os programadores de SESC, professores, dizendo que é legal estarmos formando público para o futuro. Marcelo: Eu quero teatro para todos os públicos, e não teatro infantil. Isso a gente vê muito em festival fora do Brasil, o que é muito bacana. Você pode pensar em um teatro "inadequado" para uma criança, por mil razões que você pode dar. Ilo: Eu tenho consciência de que fazer teatro para criança é um projeto social. Não existe educação da criança se ela não é aproximada (da arte). Então aí sim, preparar público, para a vida, para tudo.
Dramaturgia Vladimir: Eu estou tão perplexo (com a situação do teatro feito para crianças) que acho que nem há o que falar, que o silêncio fala por si. Pamela:
Existem várias formas de dramaturgia. Acho que essa diversidade,
essas formas de chegar às crianças e a diferentes tipos
de criança, precisam ser repensadas, senão a gente vai
ter uma visão muito limitada e a gente sempre vai (recorrer)
ao mesmo. Henrique: São poucas as pessoas que vão a fundo, que se dispõem a entender qual é o universo em que a criança vive, e portanto como fazer para que a sua produção artística, sua inspiração artística possa, não chegar forçadamente nesse universo, mas estar também em sintonia com ele. E é muito pouca gente que faz isso, entre pais, educadores e artistas. A gente faz um trabalho muito específico, a gente trabalha com um público muito específico e pouca gente entende disso. Antonio: Mas acho que isso está tão impregnado na gente! Nós somos pais, somos avós, a gente está observando diariamente... Rita: A dramaturgia está dando sua resposta sim, não se vendendo, fazendo o que é digno, o que eu acredito. Eu monto textos de dramaturgos que têm a ver com o que eu acredito. Mas isso não garante que você consiga sobreviver, e sobreviver é muito importante. O que é feito para um determinado público, feito por exigência do mercado, passa. O bom trabalho, que não é modismo, que não é pré-determinado, sobrevive. Henrique: A única saída possível, para mim, no momento, é fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, da forma mais poética e verdadeira possível, sair e apresentar. Cem pessoas vêem hoje, cinqüenta amanhã. É o único jeito, você não pode sujeitar a dramaturgia ao processo, nem ao cansaço, a nada disso.
Textos Infantis Chico: Acho que hoje é difícil ter um bom texto. Mônica: Essa relação do texto é muito importante. Veja o exemplo do teatro adulto. Existem textos paradigmáticos. A gente não tem isso no teatro infantil. Não dá para ficar só na Maria Clara Machado, sinceramente. Ela não é o grande paradigma do teatro infantil brasileiro.
Henrique: Acho que sempre haverá mais texto para adultos porque o repertório de vida possível a um adulto é muito maior do que o repertório que a criança tem. O repertório da criança passa pela questão das imagens, por um entendimento da vida, da figura do pai, da figura da mãe. São coisas muito profundas para elas nas quais a gente tem que mergulhar muito seriamente e talvez a gente não fique tanto só no universo das palavras. Existe todo um universo sensorial, uma dificuldade de se entender a vida, que tem de estar no teatro para crianças. Isso muitas vezes não é compreendido pelas pessoas que fazem e que discutem o teatro para crianças. Antonio: A gente lamenta tanto, mas o nosso teatro infantil é tão novo, porque o teatro infantil surgiu aqui em 1948 pelas mãos de uma francesa e de uma russa. Até então era teatro para escolas, não teatro infantil. E a Tatiana Belinky fez aqui. O nosso teatro infantil tem 55 anos, e já é um dos melhores do mundo, queira ou não queira. Henrique: Eu vejo muito o pessoal perguntar como é que o teatro infantil, para criança, compete com a linguagem dos clipes, do vídeo game etc? Quanto mais holograma tiver, mais vai ter necessidade de se voltar para a poesia, para a natureza... Simone: Para a relação humana, para a coisa viva. A coisa ao vivo. Uma vez uma criança falou para a gente que tinha adorado o espetáculo. E eu perguntei porque. E ela: "porque é teatro de verdade". Dinho: É a renovação, o renascimento. Ele sobe no palco, parte para a ação, ele não é mais um espectador, ele faz parte, ele é ator, ele é um brincante, como o ator. Isso é lindo de se ver. A proximidade com o tema, o contato direto com o público. Kelly: É o teatro que provoca a relação entre o sonho e a realidade. Onde você se encontra com seus conflitos, e rituais de passagem, quando você se emociona e transpõe tudo isso dos seus sonhos para aquilo que você vive.
Restrições Simone: É muito difícil para um grupo que se propõe seriamente a trabalhar com criança desenvolver uma obra artística, uma obra que você consiga viver dela. Chico:
É
difícil, mas não é impossível, você
se manter com o próprio teatro, com o próprio público.
É importante o conteúdo que você tem a oferecer.
Existe hoje uma estrutura em que se pode trabalhar, para que o espetáculo
consiga ficar mais tempo em cartaz. Ilo: Está acontecendo uma coisa interessante, um pouco a Lei de Fomento, um pouco o próprio momento, estão surgindo grupos de teatro na cidade de SP. Acho que o teatro que floresce é o teatro que tem um certo sentido coletivo. Não quero dizer que tem de ser todos grupos, mas tem que ter caráter de um grupo criando, a verdade é que nem me lembro de muitos encontros que tenham havido com gente que se conhece, que faz teatro. A distribuição de verba torna um projeto competitivo, isso é muito ruim para o teatro. Mas não há um projeto cultural coletivo, não tem festivais. Marcelo: A gente não tem que ter medo do mercado como se fosse uma quimera. O mercado também somos nós. A gente não tem que lutar só para aperfeiçoar o Estado, as leis, mas lutar para melhorar o mercado, que somos nós. Pamela: Mas a pessoa também tem que sobreviver. Como se vai levar uma peça por cachê de R$600,00 ou R$700,00? Eu faço as contas e vejo que vai dar R$30,00 para cada ator. Então eu fico em casa, porque se como um lanche, lá se foi o cachê. Marcelo: A gente estava até comentando, constatando vários grupos de duas pessoas. Porque fazemos absolutamente tudo. Henrique: O que a gente não pode é determinar a produção em função do mercado. Porque isso é grave.
Projeto Poético Ilo: A importância do artista em qualquer sociedade não tem nem que discutir. Agora, não existe um projeto. Não há espaço. Se não houver um bom projeto cultural no país, essa história não vai adiante. Henrique: Quando se atinge essa coerência artística, que o que estamos fazendo, é arte, isso dá certo. A gente tem que começar a criar um trabalho, a fazer a nossa arte e a discutir as condições de fruição dessa arte. Senão a gente está se vendendo aos esquemas e o esquema corta o que é principal, que é o seu projeto poético. Porque não tem como falar que precisa de oito atores e só vai poder fazer com dois. Então você mata o seu trabalho. Simone: Se primeiro você não assumir com você mesmo seu compromisso como artista, a gente não vai mudar esse "mais ou menos" da arte. A gente vai estar sempre na mesma. Parte do artista, não dá para ficar esperando a crítica, não dá para ficar esperando prêmio.
Ilo: A palavra "medieval" me coloca uma coisa bonita porque há o teatro que vem dessa época, com improvisações. Mas também me coloca elementos negativos, porque nós estamos na Idade Média, pretendemos estar em uma Modernidade e então nesse momento a especulação em cima do mercado fica terrível, porque em função do que o mercado está precisando é determinado o produto, não é que o mercado absorve produtos melhores, ou de mais qualidade. É tudo muito manipulado. Nós não somos indústria. A arte e a cultura não podem ser colocadas como produtos de mercado. Se é um Estado Moderno, ele tem que assegurar, porque na Idade Média, se ia para feira, mas não existia um projeto de educação, cultura, saúde, uma série de coisas que o Estado Moderno coloca. A primeira coisa a ser discutida é o Estado, o projeto político disso. A continuidade da cultura tem de ser progressiva. Mas não é o mercado, é para manter a saúde da população, tem que ser enxergado como isso. A função do mercado é nos obrigar continuamente a fazer coisas, e é aquilo: "o mercado pediu isso". Henrique: Eu acho que não existe fórmula, nos processos poéticos e artísticos não pode existir fórmula, porque a partir do momento que você enquadra isso você perde a inspiração artística maior. Eu sou especialmente apaixonado pela animação e principalmente por haver encontrado essa ressonância não só na criança que tem em mim, ou na criança que eu fui, mas nas crianças hoje. Para as crianças, tudo tem vida, as crianças animam tudo. E para a criança tudo pode ser brinquedo e, enquanto brinquedo, tudo é objeto de pesquisa da vida, do mundo etc. O que eu procuro fazer é enriquecer esse jogo o tempo todo, encontrar no copo em que a criança vê o chapéu, encontrar ainda mais do que o chapéu, que eu possa oferecer a ela esse complemento. Kika: Isso é o lúdico, apesar de estar gasta essa palavra. Trabalhar com histórias passa pelo mesmo caminho, que é esse universo do imaginário, em que a gente não tem nada, nada na mão e tudo isso acontece, justamente porque a criança vê vida absolutamente em tudo. Que, se é da natureza da criança, é da nossa natureza, não vamos nos esquecer disso. Antonio: Eu acredito que é uma boa história o que a criança quer ouvir. Contar uma boa história, com o lúdico antes de tudo, é isso que a criança quer. Marcelo: Acho que tem de ser complexo e estimulante. Complexo no sentido de não subestimar a inteligência. Pamela: E provocador também. Rita: A criança, como o adulto, gosta do que é bom. Ilo: Eu só considero que realmente alguma coisa de comunicação acontece quando há uma boa metáfora, quando não é dito com uma linguagem muito descritiva ou conceitual. E a criança entende disso. Então todo o teatro que coloca para ela não é a lógica ou a informação, mas a capacidade de assimilar as coisas através do jogo, o teatro que vem com essa positividade. Aliás, o teatro para mim é isso, eu sou contra o realismo.
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por Renata de Albuquerque e José Fernando Peixoto de Azevedo
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