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Treino das emoções

 

 

 

Conversa de algumas horas e muitos anos

 

 

 

 

 

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Treino das Emoções
Tatiana Belinky fala sobre a importância do teatro infantil para a formação humana

 

Eu sempre convivi com teatro, meus pais eram gente chegada a uma cultura e eu desde pequenininha conheci teatro e até estreei como atriz aos quatro anos de idade, eu era uma mosca.

Nossos pais nos levavam, meu irmão e eu, para ver teatro infantil e para ópera e para opereta e para teatro adulto, teatro sempre fez parte da nossa vida. Falava-se muito de teatro, eu lia muito teatro, eu comecei a ler com quatro anos, eu lia poesia, contos, enfim, tudo o que era ligado à literatura e essas coisas.

Chegamos no Brasil sem a língua. Português foi minha quarta língua, eu aprendi rapidinho. Mas não havia muita coisa para crianças, e o que havia era proibido para crianças. Nunca sonhamos uma coisa dessas na Europa. Os pais levavam as crianças para teatro, fazia parte da vida. Não precisava ser censurado ou proibido para isso ou para aquilo. Então, durante alguns anos não tive teatro aqui, a não ser brincar de teatro na escola, brincar de teatro em casa.

Eu sempre escrevi. Quando eu cheguei aqui, com dez anos, tinha que contar as impressões e as coisas todas, o mundo que eu vi aqui, então eu escrevia muita carta, para avô, avó, primos, tios, além disso eu também, mesmo antes de vir pra cá, já tinha um diário.

Eu brinco muito, eu não me levo muito a sério e não quero coisas solenes. Ensinar coisas é na escola. Eu quero distrair, divertir e mostrar coisas bonitas, quer dizer, com estética e ética. E brincadeira, senso de humor, é fundamental, assim como poesia é fundamental. E eu nunca me afastei disso.

Eu lia muitos livros, encontrei um rapaz (Julio Gouveia, que viria a se tornar marido de Belinky e seu parceiro em teatro infanto-juvenil) que lia muitos livros, saiu um casamento que era o casamento de duas estantes. E ele também gostava muito de teatro.E nosso namoro era muita conversa, teatro, cinema, poesia. Ele também era poeta, escrevia muito bem, então sempre estive em contato com literatura, poesia e teatro, teatro lido e teatro assistido. Começamos a fazer teatro para crianças em 1948, começou como uma brincadeira, tínhamos um grupo de amadores muito bom (o TESP - Teatro-Escola São Paulo). Fizemos uma estréia extraordinária, por acaso no Teatro Municipal, com uma adaptação do Peter Pan, que o Julio escreveu. Gostaram tanto que a Secretaria de Cultura da Prefeitura nos convidou imediatamente para fazer teatro todos os fins de semana para os teatros da Prefeitura, para as crianças.

Em todos os teatros que havia (e havia muitos, mas depois foram derrubados, depois foram construídos outros) a gente levava a peça nos fins de semana, começando no centro até os bairros, até lugares onde quase nem havia teatro, em cinemas, clubes. Isso foi de 48 até 51. Em 52, pediram para nós levarmos a peça que estávamos mostrando no teatro para o estúdio (para a TV), como presente de Natal para as crianças paulistanas. Depois pediram mais.

Começamos um programinha de vinte minutos, chamado Fábulas Animadas, que eram fábulas russas, alemãs, francesas, brasileiras, histórias de bichos. Aí já era eu quem escrevia. Porque o Julio disse "escreva" e eu "mas eu nunca escrevi teatro". Ele disse: "mas você sabe o que é teatro, escreva!". E eu tinha lido muito teatro, assistido muito teatro. E lendo teatro, eu sabia como é que se escreve teatro, como se monta diálogo, como se dá uma rubrica, eu sabia, eu conhecia teatro.

Tinha o teatro passado na TV, teleteatro. E para descobrir como é que funciona? Porque teatro é uma coisa, agora, televisão, naquele tempo, ninguém nem sabia o que era. E nós percebemos que era teatro o que nós fazíamos, mas era teatro e cinema ao mesmo tempo. A idéia nossa era promover leitura. Leitura por intermédio de teatro. Teatro é uma coisa muito boa, muito importante para a criança.

Acho que escrever para criança, seja livro, seja teatro, seja o que for, ou é muito fácil ou é impossível. Ou você tem contato com criança, você tem a criança dentro de você, ou não. Forçar, impor regras, coisas assim, não fica teatro, fica aulinha chata.

Criança é criança. É só lhes oferecer, lhes dar, expor a criança aos livros, expor o livro à criança, dar espetáculos bons, inteligentes, com estética e ética, sem dedo em riste, sem lição de moral. Deve ser prazer, lazer, divertimento.

As crianças são muito espertas, elas entendem tudo: Molière, e até alguma coisa de Shakespeare. Romeu e Julieta não há criança que não entenda e é uma tragédia. Mas e daí? Eu tenho algumas histórias tristes, de propósito. Como dizia o Julio (Gouveia), que era psiquiatra, terapeuta, isso é o treino das emoções para a vida real.

(Escrever teatro) é uma responsabilidade muito grande. Porque se você tem uma história, que é contada pelo espetáculo, e que tem um conteúdo interessante, construtivo, então, se você fizer um bom espetáculo, esteticamente bom, ele vai funcionar muito bem. Porém, se a história não for tão positiva no resultado (tem que ter todas as emoções) e for bem feita, pior. Porque aí passa uma mensagem ruim. Agora, pelo contrário, uma boa história mal representada cai no vazio. Uma boa história tem que ser bem representada. Criança quer emoção, não quer uma coisa plana, chata, de dedo em riste. É o treino das emoções.

Essas coisas muito direcionadas, didáticas, deixa para a escola, porque como diversão é chato. É chato e não desenvolve o senso estético, o senso poético, o senso de humor.

Para teatro eu recentemente não tenho escrito muito. Fiz umas duas ou três peças nos últimos anos. Eu escrevia furiosamente para teatro. Mas peças minhas estão sempre por aí, em cartaz. Teatro não envelhece, não é? A não ser que seja uma idéia mofada. Mas uma boa idéia não envelhece, além do que o público se substitui. Eles crescem e daí já vem outra geração.

 

por Renata de Albuquerque

 

 

"Um Teatro com a curiosidade da criança e a inquietação do jovem"

Com o passar dos anos, tenho me permitido o privilégio da dúvida e da incerteza, sem expectativa, nem necessidade de saber tudo antecipadamente.

Além da minha produção como diretor, dramaturgo e criador junto ao grupo Pasárgada, ao longo de três décadas ( Panos e Lendas, Velhos Retratos, Moinhos e Carrosséis, Martim Cererê), tenho acompanhado pouco o teatro infantil que está sendo feito atualmente. Meu trabalho, principalmente na última década, foi em outra direção, utilizando o teatro como instrumento de conscientização social, educacional, política e ambiental, propondo discussões de temáticas específicas, como DST- Aids, Meio Ambiente, Cidadania, Ética, Valores Humanos, atuando com públicos diferenciados; crianças, jovens, adultos e idosos em escolas, teatros convencionais, universidades e outros espaços.

Por outro lado, o que tenho visto e ouvido lembra em muito o panorama de algumas décadas atrás, quando existiam alguns poucos grupos que tinham uma preocupação séria com pesquisa, estética, linguagem e, sobretudo, um olhar de curiosidade e investigação sobre o universo infantil para criar texto e espetáculo, como todo bom teatro, independente de ser para crianças ou adultos.

Tive o privilégio de fazer parte de um grupo que desenvolveu um jeito de fazer teatral mantido por muitos anos com produções sucessivas, com textos escritos exclusivamente para os interesses do grupo: resgate de cultura popular, o jogo teatral como instrumento de criação, músicos e atores tocando e cantando ao vivo, cenários e figurinos que permitiam manipulação e transformação cênica constante e, sobretudo, a intuição de se questionar, rever e buscar novos caminhos para um teatro que pudesse agradar e envolver crianças e adultos, num jogo constante de interesse, criatividade e magia.

Queríamos um teatro endereçado com qualidade e busca de espaço para consolidação. A continuidade e a constância na luta de nadar contra a corrente da pejorativa conceituação de "teatrinho ou pecinha infantil", resistindo contra um preconceito que vinha de todos os lados; pais, professores e inclusive da chamada "classe teatral".

Alguns espetáculos desse período apontavam essencialmente para o rompimento com o que era o teatro infantil tradicional, no qual a fórmula imperativa era participação imposta e direcionada, do completo descaso pela imaginação da criança, atores mal preparados e com imitações grosseiras e exageradas, textos tradicionais de contos de fadas mal adaptados e histórias com ênfase maniqueísta e moralizante.

Um breve olhar sobre este período, também estabelece como referência o teatro infantil e juvenil, como exercício de pensar e interpretar as diversas possibilidades de uma história, um jogo, uma canção, em constantes evoluções de cenas, transformação, magia, lirismo e criatividade. Muitos espetáculos dessa época sustentavam-se apenas em um roteiro como pré-texto para o grupo desenvolver uma encenação.

Muitas das dificuldades que estavam presentes naquele momento ainda permanecem até hoje, como a ausência de público, o pouco interesse das escolas, a falta de subsídios governamentais, o descaso da mídia, o despreparo dos atores, etc. Pode ser que tudo isso ainda se repita, por termos uma história muito recente desta especificidade teatral, estamos engatinhando com pouco mais de quatro ou cinco décadas e não chegamos à adolescência para encontrar uma história que aponte caminhos e veredas.

Entretanto muitos outros movimentos se fortaleceram nos últimos anos, como o teatro de bonecos e os espetáculos de rua, dando uma amplitude maior ao espetáculo feito para todas as idades. Também o teatro como recurso educacional ampliou-se nas escolas e nas universidades, por meio de teses e pesquisas. Profissionais com habilitação e licenciatura em Artes Cênicas estão cada vez mais atuando nas escolas como artistas-educadores. Por outro lado, alguns nichos ainda permanecem fechados, recusando encarar o teatro infantil como uma atividade séria e de importância fundamental para a formação cultural e educacional da criança e do jovem. É o caso das universidades e escolas técnicas que não tem em seu currículo, disciplinas sobre o teatro infanto juvenil ou sobre o treinamento do ator como noções básicas de pedagogia e psicologia infantil nos cursos de formação.

Talvez, um ator com uma formação centrada na arte e na cultura, como instrumento que não trata somente do corpo orgânico, mas também do corpo sutil - não condicionado e domesticado pela repetição do cotidiano, ao longo do tempo. Uma experiência com base no resgate do espaço lúdico, da arte de representar, compreender, brincar e se envolver com o universo infantil e apesar do lugar comum, amar a criança adormecida em cada um de nós, através de uma viagem constante de retorno à infância, assim como a história de amor e proteção de "Quando eu voltar a ser criança" de Janusz Korczak.

Pode ser um exagero, mas é preferível errar por excesso. Um ator-educador-pedagogo com percepção e sensibilidade para atuar como agente de transformação e mudança, com consciência da capacidade humana e afetiva do seu papel de artista, muito mais que um conhecimento intelectual específico. Um ator que tenha entusiasmo para enfrentar desafios, partindo de princípios essenciais, percebendo que o teatro e a educação caminham lado a lado, num processo constante de construção do homem e a descoberta do caminho é feita em conjunto, passando por ensaios, acertos e erros, num eterno recomeçar.

Apesar das dúvidas e incertezas que ainda trago em mim, tenho prazer e paixão por ter escolhido fazer teatro para crianças. Continuo acreditando que o teatro é um instrumento para encontrar o outro. É a arte do encontro e o espetáculo é a uma mera conseqüência

Ao longo de algumas décadas, aprendi que é impossível compreender o mundo sem a curiosidade da criança e a inquietação do jovem e o teatro tem um papel fundamental no desenvolvimento da percepção e da sensibilidade para que possamos estar em constante atuação no palco e na vida.

 

*Dramaturgo e Arte Educador

 

POR José Geraldo Rocha*

 

 

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