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A hora e a vez do teatro. Fomentar é preciso!
Eles
não sabem, nem sonham, Era preciso criar
alternativas às mesmices e às lamúrias herdadas
e/ou impostas pela tradição. Mais que isso, era preciso
que o teatro recuperasse a capacidade de reinventar, de chocar, de espantar,
de denunciar; contrapondo-se, assim, ao teatro entretenimento - showbusiness,
"besteirento", tipo-assim-impactante, mercadoria. Era preciso recuperar
o teatro como linguagem artística, como pesquisa estética,
como objeto sociológico, como trabalho produzido por um conjunto
de indivíduos históricos e com necessidade de interlocução.
Um teatro em que seus trabalhadores recebessem pelo seu fazer! Depois de inúmeras
experiências teatrais abortadas - "nesses nossos ásperos
tempos" -, e advindas principalmente de um longo e destruidor período
ditatorial, alguns homens e mulheres de teatro deram início a
uma série de encontros em que se discutia e se pensava na criação
de estratégias para contrapor-se à barbárie instituída.
Esse movimento, que juntou gente dos mais diversos matizes, tanto políticos
quanto estéticos, foi batizado de Arte Contra a Barbárie.
Sujeitos tinhosos,
batalhadores, radicais, insistentes conquistaram - depois de muitas
e acirradas lutas, para o teatro paulistano - o Programa Municipal de
Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo (Lei n°13.279,
de 08 de janeiro de 2002, projeto apresentado pelo então vereador
do Partido dos Trabalhadores, Vicente Cândido), que prevê
a distribuição de uma verba anual (e reajustada) de R$
6.000.000,00.
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Nunca a cidade de
São Paulo ofereceu tantas e qualitativas produções
em teatro. É preciso ficar atento: muita coisa há para ser
vista, discutida, debatida. Assim, nas três edições
já acontecidas, 40 grupos foram selecionados e, dentre eles, 10
tiveram sua continuidade aprovada. No centro da cidade, no centro de um
conjunto habitacional de São Miguel Paulista, numa praça
da Zona Sul , na biblioteca de uma praça, na confluência
de vielas de favelas, em inúmeros galpões, nas ruas, em
vários dos teatros da cidade a população lota espaços,
acompanha, participa e se encanta com o que vê. Muitos desses indivíduos
jamais haviam tido a oportunidade de assistir a um espetáculo teatral. O fomento significa
uma incontestável vitória cidadã da classe teatral
para a cidade de São Paulo. Dentre outros aspectos, o programa
tem promovido um permanente processo de discussão acerca de projetos
estéticos com alcance social; a reativação da militância
política; a reunião de indivíduos dos mais diferentes
matizes e tendências (tanto estéticas quanto políticas),
em prol de um projeto comum; discussão, escolha e "sabatinação"
acerca dos representantes da classe no processo de seleção
(pelo menos assim aconteceu na Cooperativa Paulista de Teatro antes da
3ª edição); discussões públicas em que
esses mesmos representantes apresentam os critérios que pautaram
os grupos selecionados (após a 1ª e 2ª edições
no TUSP, da Maria Antonia). Aprendemos a elaborar projetos e discutir
internamente, redemocratizando as relações de trabalho;
restabelecemos laços concretos de parcerias; aprendemos, por fim
(e isso é muito bom), a sonhar, correr atrás dos sonhos...
Participar desse processo,
inicialmente como um dos representantes da classe, é motivo de
grande honra e de compromissada-militante-alegria (e mesmo sem procuração,
acredito que esse sentimento possa ser partilhado por todos os parceiros
das três edições). Trata-se de tarefa espinhosa: é
muito difícil escolher entre tantos trabalhos! É difícil
julgar com, digamos, isenção. É difícil analisar
pelo papel quando não se conhece um grupo. É difícil
analisar um mau projeto quando se conhece a qualidade estética
do grupo. Foi consenso, desde a primeira edição - e sem que houvesse um "formulador" - que seria preciso tentar contemplar a todas as regiões da cidade; às diferentes estéticas: do circo ao esteticismo francês, do popular ao erudito, do experimental ao tradicional; aos grupos consagrados e aos iniciantes; às produções destinadas a diferentes faixas-etárias... Enfim, tentou-se atender, pela qualidade e percepção da seriedade dos projetos, a um amplo e variado conjunto de propostas. Apesar de todas as dificuldades - e do mesmo modo como o acontecido entre os grupos que se inscreveram no Programa de Fomento - ter partilhado dos conhecimentos, da paciência, da clarividência de mestres como Gianni Ratto, Clovis Garcia, Fernando Peixoto e outros (Mariangela Alves de Lima, Izaias Almada, Sebastião Milaré, Maria Silvia Betti, Kil Abreu, Antônio Januzelli - Janô - , Luís Fernando Ramos, José Geraldo Rocha) foi um significativo processo de aprendizado e de exercício democrático. Tudo se discutiu. Nada foi aceito sem discussão. Sempre o projeto foi
alvo da discussão e não o grupo proponente. Os resultados estão pela cidade: esparramadas pelo ar, por mãos que se juntam, nos corações e mentes dos cidadãos.
ALEXANDRE MATE - professor do Instituto de Artes da UNESP e do Teatro-escola Célia Helena
Todos os Dias, Palhaço! Algo
a comemorar no dia do palhaço? Relembrar personagens da infância
("como era bom o circo daquele tempo!" - diz o saudosista) e
dar as costas aos artistas atuais ("é, o circo está
morrendo!" - lamenta o saudosista, agora sob um olhar cínico)?
Não
participo do coro que entoa (sabe-se lá em nome de que), em um
velório infindável no tempo e no espaço, a morte
do circo e o fim do palhaço. Há quanto tempo não
estão a repetir o velho refrão: "o circo morreu"?
O circo está vivíssimo e com ele também seu principal
ícone, o palhaço. Eles estão se transformando. Mas,
transformação também é morte! Sim, mas uma
morte que gesta uma nova vida, renovada e revitalizada e, portanto, conservada.
É uma morte que renova, inova e conserva. De fato, não há muito a se comemorar no dia do palhaço. Os velhos e conhecidos "tapinhas nas costas" são mais do que manjados entre os artistas: manifestação fútil que esboça e acena com o menosprezo e não com o reconhecimento. Homenagens
aqui e acolá, idem. Menos incisivas na crueldade, mas de qualquer
modo norteadas com as vistas no passado, face à visão melancólica
dos dias atuais. Tudo isso leva a nada. De
fato, não há muito a se comemorar quando não se tem
mínimas diretrizes a nortear uma política pública
de reconhecimento e sustentação de uma atividade que formou,
sentimental e culturalmente, o brasileiro. Arriscaria a dizer que, ainda
hoje, no Brasil, vai-se mais ao circo do que ao teatro e ao cinema. E
isso sem qualquer diretriz cultural a lhe atender. O problema se transfere
para todas as esferas públicas: municipal, estadual e federal.
Aliás, o problema é anterior à política cultural.
É possível exercer dignamente sua profissão estando
à mercê das autoridades locais? A cada lugar uma ordem diversa:
"Em nossa cidade, circo não entra, porque é baixa cultura
e porque só traz problemas para a população".
Eu não estou inventando tal frase. Em minha pesquisa sobre circos
pelo Brasil, desenvolvida de 1997 a 2001, ouvi isso de uma funcionária
pública de uma cidade do Rio Grande do Sul. Em outra localidade,
o delegado exigiu cópia autenticada dos documentos de todos os
integrantes do circo e ainda ameaçou: "Se algo acontecer na
cidade, não quero nem saber se vocês estão ou não
envolvidos - vocês sairão imediatamente!" Isso para
não falar do eterno problema de encontrar vagas nas escolas públicas
para os filhos dos circenses, apesar de legislação federal
que garante tal direito. Em
meio ao sabor de cada localidade, resta ao palhaço a função
de fazer rir. E riem o prefeito, o delegado, o padre, o juiz, a dona de
casa, o vagabundo, o bêbado, o padeiro... Todos, ou quase todos,
enfim, já que muitos têm apenas "pedra nos rins",
como disse Millôr. Mas lá estão, para rir ou xingar,
aplaudir ou vaiar. Do que é que riem? Riem dessa figura grotesca, rude e rústica, para quem falta o mínimo de inteligência, mas que, em meio a toda estultice, consegue superar em cena a soberania de seu opositor. Riem porque o fraco e bobo faz o forte e astuto experimentar - às vezes - o sabor da derrota. A cena cômica circense, de certa forma, devolve em forma de utopia espetacular a vingança que se deseja no dia a dia. Ela, ao mesmo tempo, manifesta em todas as dimensões a presença constante da fome: de comida, de sexo, de felicidade, de alegria, de justiça etc. E o palhaço é o responsável por isso: figura cômica que encarna, na época da luta de classes, o arquétipo do trickster, a povoar a sombra inaudita do contrário, do avesso, do caos participante do cosmos, da desordem em meio ao excesso de ordem, do sem-sentido ao sentido pleno. Seu riso rejuvenesce e alimenta. É um riso que não menospreza o oponente. Por quê? Porque a cena cômica circense não se pauta pelo critério da mimese do real. Nela
tudo é jogo proposital, cuja eficácia depende diretamente
da platéia e sua cumplicidade, e o motivo do riso se direciona
exclusivamente para a personagem-palhaço. Essa
personagem que participa ativamente de nosso imaginário (inclusive
para a venda de hambúrguer!) e para a qual recorremos quando queremos
metaforizar alguma farsa grotesca em nossas vidas, (chamando-a de "palhaçada"),
está tendo uma única opção: a resistência.
Resistindo, o palhaço está se proliferando. Está
ganhando os palcos dos teatros, pois é crescente o assédio
de encenadores e atores com as lides circenses. Está ganhando as
ruas, aliado ao malabarismo, à pirofagia, ao diábolo etc.,
por uma exclusiva questão de sobrevivência, como uma espécie
de camelô que oferece um produto que não se consome, mas
que se absorve pelo crivo do prazer e do entretenimento. No entanto, o palhaço só se realiza plenamente no ambiente que o criou: o circo. Sim, o palhaço, tal como o conhecemos, é criação específica e exclusiva do circo, ainda no século XIX. No circo ele sobrevive e resiste. Ali ele encontrou o seu contrário, o seu opositor, (o Clown Branco ou o Mestre de Pista) e isso possibilitou o desenvolvimento máximo de sua dignidade profissional, expondo-se em entradas, reprises, comédias, melodramas etc. Sempre a exposição do ridículo, do ingênuo e do avesso. Aliás, adjetivos que poderiam perfeitamente associar-se à atenção das políticas públicas para com o circo e seus palhaços.
Mário Fernando Bolognesi - Professor de História da Arte e Filosofia da Arte da Unesp, campus de Marília (SP), trapezista e diretor circense e teatral, autor do livro Palhaços, da Editora Unesp, de 2003.
O
palhaço é a celebração do encontro entre o
circo e o teatro, a expressão mais explícita desta relação,
raiz da própria existência do circo. O
circo veio das festas populares, do teatro, dos mercados, veio da necessidade
de comida para os artistas. Todos estes elementos permanecem presentes
no circo atual, alguns mais que outros. Mas
esse palhaço, hoje, virou carne de vaca. Não agüento
mais ver atores se fazendo de bobos com bolinhas redondas no nariz, que
os deixam fanhos. Sim, eu sei, o nariz é a menor máscara
do mundo. Ele é fundamental para a formação do ator,
para a formação do palhaço. Mas, se procuramos artistas
(atores) profissionais no palco ou no picadeiro, não precisaremos
mais dessa máscara. Palhaços fazem rir para ganhar a vida,
e não para necessariamente encher o mundo de poesia. Podem até
fazê-lo, mas será em decorrência do seu objetivo maior:
ganhar a vida, comunicando-se com seu público. Nada além
disso. Se o palhaço consegue fazer seu público rir, consegue
uma comunicação honesta com a platéia, ele ganha
dinheiro e garante sua subsistência. Se não, terá
de mudar de profissão. Por isso, palhaços não devem
preocupar-se tanto com a pirotecnia do espetáculo. A base de seu
trabalho está na relação com o público. Leo Bassi, o grande palhaço contemporâneo, é conhecido como "palhaço terrorista". Quem viu o espetáculo sabe porque. A imagem do palhaço de terno e gravata, correndo pela platéia com latas de Coca Cola amarradas ao corpo, e uma furadeira na mão "explodindo" as latas sobre o público resume a força de seu trabalho, assim como a força potencial do teatro e do circo. Esta
imagem nos mostra o que significa realmente o terrorismo, nos remete às
lutas insolúveis do Oriente Médio, nos faz rir, nos assusta,
e põe o poder americano, o poder da Coca Cola, no seu devido lugar. A
comédia (gênero do qual faz parte o palhaço) tem uma
técnica específica. Essa técnica tem de ser aprendida. Os
símbolos do palhaço vêm da sua bebedeira e conseqüente
irreverência (o nariz vermelho) e da sua pobreza (as roupas de tamanho
errado). E não da poesia inerente às suas histórias.
Essa poesia cabe aos poetas, aos críticos. E, talvez, aos bobos,
e egocêntricos. Prefiro assistir a um espetáculo e ser levado a pensar sobre a condição humana pela lembrança de Leo Bassi de cuecas, coberto de mel e penas, correndo e gritando pelas ruas da cidade, celebrando a sua (e nossa) liberdade. É mais instigante. Paralelos brasileiros? Em São Paulo, os grupos Le Plat du Jour, La Mínima (não confundir com Circo Mínimo) e Parlapatões são alguns exemplos.
Rodrigo
Matheus - Ator e diretor teatral e circense, fundador e diretor artístico
do Circo Mínimo. É um dos fundadores do Movimento Pró-Circo,
movimento de articulação política de circenses, um
dos fundadores e diretores da Central do Circo, Centro para profissionais
voltado para o treinamento e pesquisa das técnicas do circo, consultor
do NEC, Núcleo de Estudos do Circo, e diretor, ao lado de Alex
Marinho, do Centro de Formação Profissional em Artes Circenses
- CEFAC, recém fundado.
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