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A hora e a vez do teatro. Fomentar é preciso!

 

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Pedra filosofal. Antônio GEDEÃO.

Era preciso criar alternativas às mesmices e às lamúrias herdadas e/ou impostas pela tradição. Mais que isso, era preciso que o teatro recuperasse a capacidade de reinventar, de chocar, de espantar, de denunciar; contrapondo-se, assim, ao teatro entretenimento - showbusiness, "besteirento", tipo-assim-impactante, mercadoria.

Era preciso recuperar o teatro como linguagem artística, como pesquisa estética, como objeto sociológico, como trabalho produzido por um conjunto de indivíduos históricos e com necessidade de interlocução. Um teatro em que seus trabalhadores recebessem pelo seu fazer!

Depois de inúmeras experiências teatrais abortadas - "nesses nossos ásperos tempos" -, e advindas principalmente de um longo e destruidor período ditatorial, alguns homens e mulheres de teatro deram início a uma série de encontros em que se discutia e se pensava na criação de estratégias para contrapor-se à barbárie instituída. Esse movimento, que juntou gente dos mais diversos matizes, tanto políticos quanto estéticos, foi batizado de Arte Contra a Barbárie.

Sujeitos tinhosos, batalhadores, radicais, insistentes conquistaram - depois de muitas e acirradas lutas, para o teatro paulistano - o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo (Lei n°13.279, de 08 de janeiro de 2002, projeto apresentado pelo então vereador do Partido dos Trabalhadores, Vicente Cândido), que prevê a distribuição de uma verba anual (e reajustada) de R$ 6.000.000,00.

 

 

Nunca a cidade de São Paulo ofereceu tantas e qualitativas produções em teatro. É preciso ficar atento: muita coisa há para ser vista, discutida, debatida. Assim, nas três edições já acontecidas, 40 grupos foram selecionados e, dentre eles, 10 tiveram sua continuidade aprovada. No centro da cidade, no centro de um conjunto habitacional de São Miguel Paulista, numa praça da Zona Sul , na biblioteca de uma praça, na confluência de vielas de favelas, em inúmeros galpões, nas ruas, em vários dos teatros da cidade a população lota espaços, acompanha, participa e se encanta com o que vê. Muitos desses indivíduos jamais haviam tido a oportunidade de assistir a um espetáculo teatral.

O fomento significa uma incontestável vitória cidadã da classe teatral para a cidade de São Paulo. Dentre outros aspectos, o programa tem promovido um permanente processo de discussão acerca de projetos estéticos com alcance social; a reativação da militância política; a reunião de indivíduos dos mais diferentes matizes e tendências (tanto estéticas quanto políticas), em prol de um projeto comum; discussão, escolha e "sabatinação" acerca dos representantes da classe no processo de seleção (pelo menos assim aconteceu na Cooperativa Paulista de Teatro antes da 3ª edição); discussões públicas em que esses mesmos representantes apresentam os critérios que pautaram os grupos selecionados (após a 1ª e 2ª edições no TUSP, da Maria Antonia). Aprendemos a elaborar projetos e discutir internamente, redemocratizando as relações de trabalho; restabelecemos laços concretos de parcerias; aprendemos, por fim (e isso é muito bom), a sonhar, correr atrás dos sonhos...

Participar desse processo, inicialmente como um dos representantes da classe, é motivo de grande honra e de compromissada-militante-alegria (e mesmo sem procuração, acredito que esse sentimento possa ser partilhado por todos os parceiros das três edições). Trata-se de tarefa espinhosa: é muito difícil escolher entre tantos trabalhos! É difícil julgar com, digamos, isenção. É difícil analisar pelo papel quando não se conhece um grupo. É difícil analisar um mau projeto quando se conhece a qualidade estética do grupo.

Foi consenso, desde a primeira edição - e sem que houvesse um "formulador" - que seria preciso tentar contemplar a todas as regiões da cidade; às diferentes estéticas: do circo ao esteticismo francês, do popular ao erudito, do experimental ao tradicional; aos grupos consagrados e aos iniciantes; às produções destinadas a diferentes faixas-etárias... Enfim, tentou-se atender, pela qualidade e percepção da seriedade dos projetos, a um amplo e variado conjunto de propostas.

Apesar de todas as dificuldades - e do mesmo modo como o acontecido entre os grupos que se inscreveram no Programa de Fomento - ter partilhado dos conhecimentos, da paciência, da clarividência de mestres como Gianni Ratto, Clovis Garcia, Fernando Peixoto e outros (Mariangela Alves de Lima, Izaias Almada, Sebastião Milaré, Maria Silvia Betti, Kil Abreu, Antônio Januzelli - Janô - , Luís Fernando Ramos, José Geraldo Rocha) foi um significativo processo de aprendizado e de exercício democrático. Tudo se discutiu. Nada foi aceito sem discussão.

Sempre o projeto foi alvo da discussão e não o grupo proponente.

Os resultados estão pela cidade: esparramadas pelo ar, por mãos que se juntam, nos corações e mentes dos cidadãos.

 

ALEXANDRE MATE - professor do Instituto de Artes da UNESP e do Teatro-escola Célia Helena


 

Todos os Dias, Palhaço!

Algo a comemorar no dia do palhaço? Relembrar personagens da infância ("como era bom o circo daquele tempo!" - diz o saudosista) e dar as costas aos artistas atuais ("é, o circo está morrendo!" - lamenta o saudosista, agora sob um olhar cínico)?

Não participo do coro que entoa (sabe-se lá em nome de que), em um velório infindável no tempo e no espaço, a morte do circo e o fim do palhaço. Há quanto tempo não estão a repetir o velho refrão: "o circo morreu"? O circo está vivíssimo e com ele também seu principal ícone, o palhaço. Eles estão se transformando. Mas, transformação também é morte! Sim, mas uma morte que gesta uma nova vida, renovada e revitalizada e, portanto, conservada. É uma morte que renova, inova e conserva.

De fato, não há muito a se comemorar no dia do palhaço. Os velhos e conhecidos "tapinhas nas costas" são mais do que manjados entre os artistas: manifestação fútil que esboça e acena com o menosprezo e não com o reconhecimento.

Homenagens aqui e acolá, idem. Menos incisivas na crueldade, mas de qualquer modo norteadas com as vistas no passado, face à visão melancólica dos dias atuais. Tudo isso leva a nada.

De fato, não há muito a se comemorar quando não se tem mínimas diretrizes a nortear uma política pública de reconhecimento e sustentação de uma atividade que formou, sentimental e culturalmente, o brasileiro. Arriscaria a dizer que, ainda hoje, no Brasil, vai-se mais ao circo do que ao teatro e ao cinema. E isso sem qualquer diretriz cultural a lhe atender. O problema se transfere para todas as esferas públicas: municipal, estadual e federal. Aliás, o problema é anterior à política cultural. É possível exercer dignamente sua profissão estando à mercê das autoridades locais? A cada lugar uma ordem diversa: "Em nossa cidade, circo não entra, porque é baixa cultura e porque só traz problemas para a população". Eu não estou inventando tal frase. Em minha pesquisa sobre circos pelo Brasil, desenvolvida de 1997 a 2001, ouvi isso de uma funcionária pública de uma cidade do Rio Grande do Sul. Em outra localidade, o delegado exigiu cópia autenticada dos documentos de todos os integrantes do circo e ainda ameaçou: "Se algo acontecer na cidade, não quero nem saber se vocês estão ou não envolvidos - vocês sairão imediatamente!" Isso para não falar do eterno problema de encontrar vagas nas escolas públicas para os filhos dos circenses, apesar de legislação federal que garante tal direito.

Em meio ao sabor de cada localidade, resta ao palhaço a função de fazer rir. E riem o prefeito, o delegado, o padre, o juiz, a dona de casa, o vagabundo, o bêbado, o padeiro... Todos, ou quase todos, enfim, já que muitos têm apenas "pedra nos rins", como disse Millôr. Mas lá estão, para rir ou xingar, aplaudir ou vaiar.

Do que é que riem? Riem dessa figura grotesca, rude e rústica, para quem falta o mínimo de inteligência, mas que, em meio a toda estultice, consegue superar em cena a soberania de seu opositor. Riem porque o fraco e bobo faz o forte e astuto experimentar - às vezes - o sabor da derrota. A cena cômica circense, de certa forma, devolve em forma de utopia espetacular a vingança que se deseja no dia a dia. Ela, ao mesmo tempo, manifesta em todas as dimensões a presença constante da fome: de comida, de sexo, de felicidade, de alegria, de justiça etc. E o palhaço é o responsável por isso: figura cômica que encarna, na época da luta de classes, o arquétipo do trickster, a povoar a sombra inaudita do contrário, do avesso, do caos participante do cosmos, da desordem em meio ao excesso de ordem, do sem-sentido ao sentido pleno. Seu riso rejuvenesce e alimenta. É um riso que não menospreza o oponente. Por quê? Porque a cena cômica circense não se pauta pelo critério da mimese do real.

Nela tudo é jogo proposital, cuja eficácia depende diretamente da platéia e sua cumplicidade, e o motivo do riso se direciona exclusivamente para a personagem-palhaço.

Essa personagem que participa ativamente de nosso imaginário (inclusive para a venda de hambúrguer!) e para a qual recorremos quando queremos metaforizar alguma farsa grotesca em nossas vidas, (chamando-a de "palhaçada"), está tendo uma única opção: a resistência. Resistindo, o palhaço está se proliferando. Está ganhando os palcos dos teatros, pois é crescente o assédio de encenadores e atores com as lides circenses. Está ganhando as ruas, aliado ao malabarismo, à pirofagia, ao diábolo etc., por uma exclusiva questão de sobrevivência, como uma espécie de camelô que oferece um produto que não se consome, mas que se absorve pelo crivo do prazer e do entretenimento.

No entanto, o palhaço só se realiza plenamente no ambiente que o criou: o circo. Sim, o palhaço, tal como o conhecemos, é criação específica e exclusiva do circo, ainda no século XIX. No circo ele sobrevive e resiste. Ali ele encontrou o seu contrário, o seu opositor, (o Clown Branco ou o Mestre de Pista) e isso possibilitou o desenvolvimento máximo de sua dignidade profissional, expondo-se em entradas, reprises, comédias, melodramas etc. Sempre a exposição do ridículo, do ingênuo e do avesso. Aliás, adjetivos que poderiam perfeitamente associar-se à atenção das políticas públicas para com o circo e seus palhaços.


(Foto do palhaço Biribinha, do Circo di Monza, em Redentora (RS) / CRÉDITO: Kiko Roselli)

 

Mário Fernando Bolognesi - Professor de História da Arte e Filosofia da Arte da Unesp, campus de Marília (SP), trapezista e diretor circense e teatral, autor do livro Palhaços, da Editora Unesp, de 2003.


 

O palhaço e os bobos

O palhaço é a celebração do encontro entre o circo e o teatro, a expressão mais explícita desta relação, raiz da própria existência do circo.

O circo veio das festas populares, do teatro, dos mercados, veio da necessidade de comida para os artistas. Todos estes elementos permanecem presentes no circo atual, alguns mais que outros.

Mas esse palhaço, hoje, virou carne de vaca. Não agüento mais ver atores se fazendo de bobos com bolinhas redondas no nariz, que os deixam fanhos. Sim, eu sei, o nariz é a menor máscara do mundo. Ele é fundamental para a formação do ator, para a formação do palhaço. Mas, se procuramos artistas (atores) profissionais no palco ou no picadeiro, não precisaremos mais dessa máscara. Palhaços fazem rir para ganhar a vida, e não para necessariamente encher o mundo de poesia. Podem até fazê-lo, mas será em decorrência do seu objetivo maior: ganhar a vida, comunicando-se com seu público. Nada além disso. Se o palhaço consegue fazer seu público rir, consegue uma comunicação honesta com a platéia, ele ganha dinheiro e garante sua subsistência. Se não, terá de mudar de profissão. Por isso, palhaços não devem preocupar-se tanto com a pirotecnia do espetáculo. A base de seu trabalho está na relação com o público.

Leo Bassi, o grande palhaço contemporâneo, é conhecido como "palhaço terrorista". Quem viu o espetáculo sabe porque. A imagem do palhaço de terno e gravata, correndo pela platéia com latas de Coca Cola amarradas ao corpo, e uma furadeira na mão "explodindo" as latas sobre o público resume a força de seu trabalho, assim como a força potencial do teatro e do circo.

Esta imagem nos mostra o que significa realmente o terrorismo, nos remete às lutas insolúveis do Oriente Médio, nos faz rir, nos assusta, e põe o poder americano, o poder da Coca Cola, no seu devido lugar.

A comédia (gênero do qual faz parte o palhaço) tem uma técnica específica. Essa técnica tem de ser aprendida.

Os símbolos do palhaço vêm da sua bebedeira e conseqüente irreverência (o nariz vermelho) e da sua pobreza (as roupas de tamanho errado). E não da poesia inerente às suas histórias. Essa poesia cabe aos poetas, aos críticos. E, talvez, aos bobos, e egocêntricos.

Prefiro assistir a um espetáculo e ser levado a pensar sobre a condição humana pela lembrança de Leo Bassi de cuecas, coberto de mel e penas, correndo e gritando pelas ruas da cidade, celebrando a sua (e nossa) liberdade. É mais instigante. Paralelos brasileiros? Em São Paulo, os grupos Le Plat du Jour, La Mínima (não confundir com Circo Mínimo) e Parlapatões são alguns exemplos.

 

 

 

Rodrigo Matheus - Ator e diretor teatral e circense, fundador e diretor artístico do Circo Mínimo. É um dos fundadores do Movimento Pró-Circo, movimento de articulação política de circenses, um dos fundadores e diretores da Central do Circo, Centro para profissionais voltado para o treinamento e pesquisa das técnicas do circo, consultor do NEC, Núcleo de Estudos do Circo, e diretor, ao lado de Alex Marinho, do Centro de Formação Profissional em Artes Circenses - CEFAC, recém fundado.
Rodrigo Matheus é professor convidado do Circus Space, de Londres, Circus Oz e Flying Fruit Flys da Austrália, do Ballet da Cidade de São Paulo e da Escola Livre de Teatro de Santo André.

 

 

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