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NOTÍCIAS

23/06/2009 - 14:40
Grupo Os Satyros comemora 20 anos

Leia a entrevista com Rodolfo García Vázquez, diretor e co-fundador de Os Satyros, sobre os 20 anos do grupo.


Em 1989, Os Satyros surgiam com a peça infantil “Arlequim”, para logo depois, em 1990, criarem polêmica com “Sade ou Noite com os Professores Imorais” (cuja remontagem pode ser vista até hoje, sob o nome de “A Filosofia na Alcova”). Com uma interpretação do texto de Marquês de Sade que trazia cenas escatológicas, de nudez, tortura e sexuais, o grupo chocou e também começou a ser reconhecido por sua ousadia.

Devido a problemas financeiros pela falta de incentivo à cultura do governo Fernando Collor, em 1992 o grupo resolve sair do país e se instala em Portugal. Depois de ficarem um tempo com sede em Curitiba e Lisboa, eles resolvem voltar definitivamente ao Brasil e abrir uma sede em São Paulo. Assim começa a história dos Satyros com a Praça Roosevelt, fato que os deixou conhecidos no país inteiro.

Na Roosevelt, o grupo enfrentou problema com traficantes de drogas, que estavam instalados na região, e sofreram até ameaça de morte. Também tiveram protesto de alguns moradores por causa do barulho, das mesas de bar na calçada e, no início, por serem considerados promíscuos. De marginalizados, com o tempo passaram a ser badalados. Foram considerados por muitos como os responsáveis pela revitalização da Praça Roosevelt – que, apesar da praça em si ainda estar em ruínas – a rua onde ficam os teatros passou a ser muito frequentada, virando espécie de “point” da classe teatral. O grupo também criou as Satyrianas, evento que todo ano reúne milhares de pessoas na Roosevelt, em uma maratona de mais de 70 horas ininterruptas.

Foram aproximadamente 65 montagens em 20 anos de história, entre elas: “A Vida na Praça Roosevelt”, “Transex”, “De Profundis”, “Antígona”, “Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte”, “Saló, Salomé”, “Divinas Palavras”e “Inocência”.

Agora o grupo comemora seu aniversário com quatro peças em cartaz. Acabaram de estrear “Justine”, que fecha a trilogia de Sade, também composta por “Os 120 Dias de Sodoma” e “A Filosofia na Alcova” (apresentadas no espaço dos Satyros). E entraram em cartaz com “Liz”, no Sesc Av. Paulista, que teve temporada anterior em Cuba.

A seguir, leia entrevista com o diretor e um dos fundadores do grupo Rodolfo García Vázquez.

Os Satyros estão comemorando aniversário com quatro peças em cartaz (“Liz” e Trilogia Libertina). Como elas refletem e são representativas dos 20 anos do grupo?
A Trilogia Libertina está ligada aos primeiros tempos polêmicos nossos. Ela também ratifica a nossa independência criativa. Sempre seguimos caminhos muito próprios, e que nos custaram muito caro também. Com relação à “Liz”, o espetáculo é representativo da nossa inquietação. Nossa estética se espraia por uma série de propostas diferenciadas e sempre renováveis. “Liz” é mais uma investigação, uma experimentação por um caminho novo para nós, misturando elementos da arte pop, da cultura dos anos 60, do neo psicodelismo e da tropicália a partir de um texto ousado e complexo.

O que mais Os Satyros estão preparando para a comemoração dos 20 anos?
Estamos começando a preparar a Satyrianas deste ano. Também vamos fazer uma mostra do nosso trabalho no Rio de Janeiro em julho próximo, no Teatro Sérgio Porto. E pretendemos estrear um espetáculo novo no segundo semestre, a partir da obra de um dramaturgo estrangeiro.

Depois de terem sido considerados por muitos os responsáveis pela revitalização da Praça Roosevelt, agora Os Satyros têm transitado com mais frequência por outros espaços da cidade (na Av. Paulista – Itaú Cultural e Sesc – e no CCSP). Como você vê isso? É um reflexo da visibilidade que o grupo tem ocupado na mídia? Como você vê o fato das peças consideradas mais polêmicas, como as da trilogia de Sade (“Justine”, “Os 120 Dias de Sodoma” e “A Filosofia na Alcova”), serem justamente as que permanecem na Roosevelt? O resto da cidade ainda não está preparado para os libertinos de Sade?
Os Satyros têm uma casa, um lar, chamado Praça Roosevelt. Foi o lugar que escolhemos para nos estabelecer quando voltamos definitivamente a São Paulo. É na Praça que desenvolvemos nossos ensaios, pesquisas, encontros, e tudo o mais. No entanto, sentimos que é bom também dialogar com outros espaços teatrais, numa deslocação geográfica, que nos trazem outros públicos, até então desconhecidos para nós. É interessante ver a terceira idade no SESC Paulista, assistindo a “Liz”, um público que provavelmente nunca pisaria na Roosevelt. O público sabe que vai nos encontrar sempre na Praça, mas também pode nos conhecer em outros pontos da cidade. O escândalo já não envolve a Trilogia Libertina como alguns anos atrás. Quando estreamos “Sades...”, em 1990, éramos moleques e rebeldes. A crítica e o público não sabiam muito bem o que fazer conosco, em que “prateleira” nos colocar. Fomos recusados por teatros sérios e por teatros pornôs quando quisemos apresentar o trabalho em São Paulo. A gente se sentia acorrentado por não poder mostrar nosso trabalho. Foi por isso que surgiu a necessidade de assumir o nosso primeiro espaço, o Teatro Bela Vista. Desde então, ter um teatro significa para nós a liberdade total de criação, fundamental para o nosso ideário. Hoje as coisas mudaram. O escândalo já não é o mesmo. Isso demonstra que, felizmente, nossa sociedade está amadurecendo. No entanto, ainda é impossível imaginar qualquer uma dessas peças sendo apoiada por uma empresa tradicional através da Lei Rouanet.

Quando o grupo estreou “Sades ou Noite com os Professores Imorais” em 1990, foi um escândalo para época. Agora, 19 anos depois, Os Satyros entram em cartaz com “Justine”. Por mais que as duas peças contenham cenas igualmente fortes, as plateias não mais se chocam com esse tipo de teatro? O que mudou da primeira montagem de um texto do Marquês de Sade para esta última?
Quando montamos “Sades...”, sentíamos uma necessidade muito grande de provocar, de causar desconforto numa sociedade “collorida” e hipócrita. Tínhamos uma revolta imensa diante de um mundo real e teatral onde não nos encaixávamos. Chegamos a perder amigos na época, depois de terem assistido ao espetáculo! Praticamente vinte anos depois, “Justine” é um trabalho de maturidade, onde Sade é apresentado de uma forma mais profunda, com uma pesquisa mais complexa. Nosso único objetivo em “Justine” era fazer uma pesquisa profunda sobre o universo sadeano em todas as suas implicações. Trata-se de um espetáculo maduro e ainda assim muito provocador, não tanto pelo escândalo mas pelas feridas em que toca.

Qual foi o período mais difícil do grupo nesses 20 anos? E o melhor?
Períodos difíceis foram muitos. Tivemos que viver durante cinco anos, divididos entre Portugal e Curitiba, enquanto nosso sonho era voltar a São Paulo. Quando chegamos a São Paulo e mesmo com uma carreira internacional de dez anos, éramos completamente desconhecidos da classe, da imprensa e do público. Difíceis foram todas as vezes que ficamos sozinhos, sem estrutura, lutando contra moinhos, como todos os grupos de teatro no Brasil sempre tem que enfrentar. Os melhores momentos também foram muitos. Quando fomos ao Festival de Edimburgo e provocamos um rebuliço, com direito a reportagens na BBC. Durante 20 dias, fomos seguidos por carros da polícia todas as noites, após as apresentações. Na nossa viagem à Alemanha com “A Vida na Praça Roosevelt”, a receptividade do público alemão, que chegava a aplaudir durante oito minutos seguidos. O ano passado, em Cuba, com “Liz”, o carinho do público cubano. Também temos sempre os nossos melhores momentos anuais, as “Satyrianas”. Um momento marcante, belo e triste ao mesmo tempo, foi a homenagem a Paulo Autran, uma multidão com balões brancos espalhados pela Praça, dois dias depois de sua morte, durante a grande festa do teatro. Mas acreditamos que ainda vamos viver muitos outros momentos felizes. A abertura da Escola de Teatro vai ser um deles. Um sonho que se realiza.

Depois de 20 anos e muita repercussão na mídia, você considera que está “mais fácil” fazer teatro?
Talvez em alguns aspectos seja mais fácil hoje em dia. Não precisamos nos apresentar aos jornalistas e explicar o que fazemos. Também não temos que construir um público nosso. Mas continuamos sofrendo altos e baixos. Há um ano e meio não conseguimos nenhum tipo de apoio público (federal, estadual ou municipal) para novos projetos. Existe essa sensação disseminada de que somos midiáticos e não precisamos de dinheiro para realizar nosso projeto estético. Então temos que viabilizar os nossos projetos de uma forma que nenhum outro grupo aceitaria desenvolver. Os dois últimos espetáculos, “Liz” e “Justine”, foram produzidos a partir dos esforços da equipe, sem nenhum tipo de cachê. Só agora, com a temporada do SESC, conseguimos viabilizar algo para a equipe de “Liz”, que já estava há mais de um ano trabalhando no espetáculo. Ensaiamos “Justine”, por exemplo, durante nove meses, seis horas por dia, sem nenhum tipo de apoio financeiro. Poderíamos ficar nos lamentando e esperar para produzir até que as verbas fossem atribuídas a nós. Mas são desafios que não temos medo de enfrentar, apesar de exigirem um esforço enorme de todos nós. Por isso fico sempre impressionado quando penso em tudo que fazem os atores dos Satyros para poder criar os nossos projetos. São artistas que acreditam no sonho do teatro, apesar de tantas dificuldades.

O grupo passou por muitos desafios na Roosevelt (conflito com traficantes, com os moradores, com um público que demorou a acabar com os preconceitos e com o medo de frequentar o local). Como é a relação dos Satyros agora “com a Praça”? Ainda enfrentam dificuldades? Como você vê o fato da Roosevelt ter se tornado um lugar muito badalado?
Temos orgulho de ver no que a Praça se transformou, ela demonstra o poder de transformação do teatro. Com tantos teatros e parceiros incríveis, um ponto de encontro de artistas e intelectuais, jornalistas e público, um lugar onde a cidadania pode respirar e repensar nossos caminhos culturais, a Praça Roosevelt já se tornou até ponto turístico cult...e pensar que chegamos ali e abrimos uma salinha pequena de 80 m2 há nove anos atrás. Os problemas ainda existem. Alguns poucos moradores que não nos aceitam, problemas com os sem-teto que vivem na marquise da Praça e não aceitam nosso contato. As travestis que se afastaram do local porque agora os aluguéis são mais caros por ali. Os imóveis que se valorizaram excessivamente e tornam inviável a vinda de outros coletivos para a Praça. Por outro lado, parceiros como os Parlapatões e o Teatro Mínimo recém-chegado nos trazem força para continuar. Onde houver liberdade, haverá sempre a discordância e o embate de ideias e propostas. Mas isso é o que nos leva ao crescimento, sempre.

Depois do teatro e da televisão, Os Satyros vão invadir o cinema também? De que forma?
Tivemos 3 experiências bastante positivas na TV Cultura, na parceria com o SESC TV, através do programa Direções. Quando poderíamos imaginar que faríamos uma minissérie de 4 episódios na televisão aberta, com direito a escolher tema, roteiro, elenco e processo de ensaios com liberdade? Isso era algo impensável quando iniciamos nossa carreira. A partir dessas experiências, é natural que o nosso caminho pelo cinema se desenvolva. Não sabemos ainda como será esse caminho, nem sabemos como um grupo de teatro pode fazer cinema mantendo sua identidade e seu modo de trabalho, crítico e coletivo. Vai ser um novo caminho a desbravar. Os próximos 20 anos dirão.



 
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