Em 1989, Os Satyros surgiam com a peça infantil “Arlequim”,
para logo depois, em 1990, criarem polêmica com “Sade ou Noite com os
Professores Imorais” (cuja remontagem pode ser vista até hoje, sob o nome de “A
Filosofia na Alcova”). Com uma interpretação do texto de Marquês de Sade que
trazia cenas escatológicas, de nudez, tortura e sexuais, o grupo chocou e também
começou a ser reconhecido por sua ousadia.
Devido a problemas financeiros pela falta de incentivo à cultura do governo
Fernando Collor, em 1992 o grupo resolve sair do país e se instala em Portugal.
Depois de ficarem um tempo com sede em Curitiba e Lisboa, eles resolvem voltar
definitivamente ao Brasil e abrir uma sede em São Paulo. Assim começa a história
dos Satyros com a Praça Roosevelt, fato que os deixou conhecidos no país
inteiro.
Na Roosevelt, o grupo enfrentou problema com traficantes de drogas, que estavam
instalados na região, e sofreram até ameaça de morte. Também tiveram protesto de
alguns moradores por causa do barulho, das mesas de bar na calçada e, no início,
por serem considerados promíscuos. De marginalizados, com o tempo passaram a ser
badalados. Foram considerados por muitos como os responsáveis pela revitalização
da Praça Roosevelt – que, apesar da praça em si ainda estar em ruínas – a rua
onde ficam os teatros passou a ser muito frequentada, virando espécie de “point”
da classe teatral. O grupo também criou as Satyrianas, evento que todo ano reúne
milhares de pessoas na Roosevelt, em uma maratona de mais de 70 horas
ininterruptas.
Foram aproximadamente 65 montagens em 20 anos de história, entre elas: “A Vida
na Praça Roosevelt”, “Transex”, “De Profundis”, “Antígona”, “Retábulo da
Avareza, Luxúria e Morte”, “Saló, Salomé”, “Divinas Palavras”e “Inocência”.
Agora o grupo comemora seu aniversário com quatro peças em cartaz. Acabaram de
estrear “Justine”, que fecha a trilogia de Sade, também composta por “Os 120
Dias de Sodoma” e “A Filosofia na Alcova” (apresentadas no espaço dos Satyros). E entraram em cartaz com “Liz”, no Sesc Av. Paulista, que teve
temporada anterior em Cuba.
A seguir, leia entrevista com o diretor e um dos fundadores
do grupo Rodolfo García Vázquez.
Os Satyros estão comemorando aniversário com quatro peças
em cartaz (“Liz” e Trilogia Libertina).
Como elas refletem e são representativas dos 20 anos do grupo?
A Trilogia Libertina está ligada aos primeiros tempos polêmicos nossos. Ela
também ratifica a nossa independência criativa. Sempre seguimos caminhos muito
próprios, e que nos custaram muito caro também. Com relação à “Liz”, o
espetáculo é representativo da nossa inquietação. Nossa estética se espraia por
uma série de propostas diferenciadas e sempre renováveis. “Liz” é mais uma
investigação, uma experimentação por um caminho novo para nós, misturando
elementos da arte pop, da cultura dos anos 60, do neo psicodelismo e da
tropicália a partir de um texto ousado e complexo.
O que mais Os Satyros estão preparando para a comemoração dos 20 anos?
Estamos começando a preparar a Satyrianas deste ano. Também vamos fazer uma
mostra do nosso trabalho no Rio de Janeiro em julho próximo, no Teatro Sérgio
Porto. E pretendemos estrear um espetáculo novo no segundo semestre, a partir da
obra de um dramaturgo estrangeiro.
Depois de terem sido considerados por muitos os responsáveis pela
revitalização da Praça Roosevelt, agora Os Satyros têm transitado com mais
frequência por outros espaços da cidade (na Av. Paulista – Itaú Cultural e Sesc
– e no CCSP). Como você vê isso? É um reflexo da visibilidade que o grupo tem
ocupado na mídia? Como você vê o fato das peças consideradas mais polêmicas,
como as da trilogia de Sade (“Justine”, “Os 120 Dias de Sodoma” e “A Filosofia
na Alcova”), serem justamente as que permanecem na Roosevelt? O resto da cidade
ainda não está preparado para os libertinos de Sade?
Os Satyros têm uma casa, um lar, chamado Praça Roosevelt. Foi o lugar que
escolhemos para nos estabelecer quando voltamos definitivamente a São Paulo. É
na Praça que desenvolvemos nossos ensaios, pesquisas, encontros, e tudo o mais.
No entanto, sentimos que é bom também dialogar com outros espaços teatrais, numa
deslocação geográfica, que nos trazem outros públicos, até então desconhecidos
para nós. É interessante ver a terceira idade no SESC Paulista, assistindo a
“Liz”, um público que provavelmente nunca pisaria na Roosevelt. O público sabe
que vai nos encontrar sempre na Praça, mas também pode nos conhecer em outros
pontos da cidade. O escândalo já não envolve a Trilogia Libertina como alguns
anos atrás. Quando estreamos “Sades...”, em 1990, éramos moleques e rebeldes. A
crítica e o público não sabiam muito bem o que fazer conosco, em que
“prateleira” nos colocar. Fomos recusados por teatros sérios e por teatros
pornôs quando quisemos apresentar o trabalho em São Paulo. A gente se sentia
acorrentado por não poder mostrar nosso trabalho. Foi por isso que surgiu a
necessidade de assumir o nosso primeiro espaço, o Teatro Bela Vista. Desde
então, ter um teatro significa para nós a liberdade total de criação,
fundamental para o nosso ideário. Hoje as coisas mudaram. O escândalo já não é o
mesmo. Isso demonstra que, felizmente, nossa sociedade está amadurecendo. No
entanto, ainda é impossível imaginar qualquer uma dessas peças sendo apoiada por
uma empresa tradicional através da Lei Rouanet.
Quando o grupo estreou “Sades ou Noite com os Professores Imorais” em 1990,
foi um escândalo para época. Agora, 19 anos depois, Os Satyros entram em cartaz
com “Justine”. Por mais que as duas peças contenham cenas igualmente fortes, as
plateias não mais se chocam com esse tipo de teatro? O que mudou da primeira
montagem de um texto do Marquês de Sade para esta última?
Quando montamos “Sades...”, sentíamos uma necessidade muito grande de provocar,
de causar desconforto numa sociedade “collorida” e hipócrita. Tínhamos uma
revolta imensa diante de um mundo real e teatral onde não nos encaixávamos.
Chegamos a perder amigos na época, depois de terem assistido ao espetáculo!
Praticamente vinte anos depois, “Justine” é um trabalho de maturidade, onde Sade
é apresentado de uma forma mais profunda, com uma pesquisa mais complexa. Nosso
único objetivo em “Justine” era fazer uma pesquisa profunda sobre o universo
sadeano em todas as suas implicações. Trata-se de um espetáculo maduro e ainda
assim muito provocador, não tanto pelo escândalo mas pelas feridas em que toca.
Qual foi o período mais difícil do grupo nesses 20 anos? E o melhor?
Períodos difíceis foram muitos. Tivemos que viver durante cinco anos, divididos
entre Portugal e Curitiba, enquanto nosso sonho era voltar a São Paulo. Quando
chegamos a São Paulo e mesmo com uma carreira internacional de dez anos, éramos
completamente desconhecidos da classe, da imprensa e do público. Difíceis foram
todas as vezes que ficamos sozinhos, sem estrutura, lutando contra moinhos, como
todos os grupos de teatro no Brasil sempre tem que enfrentar. Os melhores
momentos também foram muitos. Quando fomos ao Festival de Edimburgo e provocamos
um rebuliço, com direito a reportagens na BBC. Durante 20 dias, fomos seguidos
por carros da polícia todas as noites, após as apresentações. Na nossa viagem à
Alemanha com “A Vida na Praça Roosevelt”, a receptividade do público alemão, que
chegava a aplaudir durante oito minutos seguidos. O ano passado, em Cuba, com
“Liz”, o carinho do público cubano. Também temos sempre os nossos melhores
momentos anuais, as “Satyrianas”. Um momento marcante, belo e triste ao mesmo
tempo, foi a homenagem a Paulo Autran, uma multidão com balões brancos
espalhados pela Praça, dois dias depois de sua morte, durante a grande festa do
teatro. Mas acreditamos que ainda vamos viver muitos outros momentos felizes. A
abertura da Escola de Teatro vai ser um deles. Um sonho que se realiza.
Depois de 20 anos e muita repercussão na mídia, você considera que está “mais
fácil” fazer teatro?
Talvez em alguns aspectos seja mais fácil hoje em dia. Não precisamos nos
apresentar aos jornalistas e explicar o que fazemos. Também não temos que
construir um público nosso. Mas continuamos sofrendo altos e baixos. Há um ano e
meio não conseguimos nenhum tipo de apoio público (federal, estadual ou
municipal) para novos projetos. Existe essa sensação disseminada de que somos
midiáticos e não precisamos de dinheiro para realizar nosso projeto estético.
Então temos que viabilizar os nossos projetos de uma forma que nenhum outro
grupo aceitaria desenvolver. Os dois últimos espetáculos, “Liz” e “Justine”,
foram produzidos a partir dos esforços da equipe, sem nenhum tipo de cachê. Só
agora, com a temporada do SESC, conseguimos viabilizar algo para a equipe de
“Liz”, que já estava há mais de um ano trabalhando no espetáculo. Ensaiamos “Justine”,
por exemplo, durante nove meses, seis horas por dia, sem nenhum tipo de apoio
financeiro. Poderíamos ficar nos lamentando e esperar para produzir até que as
verbas fossem atribuídas a nós. Mas são desafios que não temos medo de
enfrentar, apesar de exigirem um esforço enorme de todos nós. Por isso fico
sempre impressionado quando penso em tudo que fazem os atores dos Satyros para
poder criar os nossos projetos. São artistas que acreditam no sonho do teatro,
apesar de tantas dificuldades.
O grupo passou por muitos desafios na Roosevelt (conflito com traficantes,
com os moradores, com um público que demorou a acabar com os preconceitos e com
o medo de frequentar o local). Como é a relação dos Satyros agora “com a Praça”?
Ainda enfrentam dificuldades? Como você vê o fato da Roosevelt ter se tornado um
lugar muito badalado?
Temos orgulho de ver no que a Praça se transformou, ela
demonstra o poder de transformação do teatro. Com tantos teatros e parceiros
incríveis, um ponto de encontro de artistas e intelectuais, jornalistas e
público, um lugar onde a cidadania pode respirar e repensar nossos caminhos
culturais, a Praça Roosevelt já se tornou até ponto turístico cult...e pensar
que chegamos ali e abrimos uma salinha pequena de 80 m2 há nove anos atrás. Os
problemas ainda existem. Alguns poucos moradores que não nos aceitam, problemas
com os sem-teto que vivem na marquise da Praça e não aceitam nosso contato. As
travestis que se afastaram do local porque agora os aluguéis são mais caros por
ali. Os imóveis que se valorizaram excessivamente e tornam inviável a vinda de
outros coletivos para a Praça. Por outro lado, parceiros como os Parlapatões e o
Teatro Mínimo recém-chegado nos trazem força para continuar. Onde houver
liberdade, haverá sempre a discordância e o embate de ideias e propostas. Mas
isso é o que nos leva ao crescimento, sempre.
Depois do teatro e da televisão, Os Satyros vão invadir o cinema também? De
que forma?
Tivemos 3 experiências bastante positivas na TV Cultura, na parceria com o SESC
TV, através do programa Direções. Quando poderíamos imaginar que faríamos uma
minissérie de 4 episódios na televisão aberta, com direito a escolher tema,
roteiro, elenco e processo de ensaios com liberdade? Isso era algo impensável
quando iniciamos nossa carreira. A partir dessas experiências, é natural que o
nosso caminho pelo cinema se desenvolva. Não sabemos ainda como será esse
caminho, nem sabemos como um grupo de teatro pode fazer cinema mantendo sua
identidade e seu modo de trabalho, crítico e coletivo. Vai ser um novo caminho a
desbravar. Os próximos 20 anos dirão.
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