|
Por Alessandra Perrechil,
com colaboração e
edição de Ney Piacentini
Qual foi a importância do “Arte contra a barbárie” para o teatro
brasileiro nos últimos
anos?
Carlos Moreira – Pautou a
questão de que cultura e arte não podem ser resolvidas apenas como
mercadoria. Pautou um não a mercantilização da cultura e da arte. E
pautou, em contrapartida a isso, que cultura e arte são necessidades
e direitos, e são deveres de Estado. Então cabe ao Estado investir:
não é gastar, não é despesa, é investir não no mercado de cultura e
arte, mas na cultura e na arte como manifestações não mercantis. É
isso que o “Arte contra a Barbárie” pautou dentro desse país.
Qual foi o resultado prático?
Moreira – O Programa de
Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo é o primeiro deles, que
é uma “cunha” e um Cavalo de Tróia que rompem com todo o discurso
neoliberal. Segundo, até agora o que pautava e existia nos últimos
anos nesse país, era o incentivo ao mercado por meio das chamadas
leis de incentivo, por exemplo, Lei Rouanet – (Federal) ou Lei
Marcos Mendonça na cidade de São Paulo. Esse discurso caiu mesmo no
discurso governamental. Se você pegar a pauta da Conferência
Municipal de Cultura, se pegar o Plano Nacional de Cultura que está
no Congresso Nacional, ele abre outras pautas que antes estavam
fechadas. Então, bem ou mau, o “Arte” pautou, e obrigou o próprio
estado burguês a abrir essa outra pauta.
Pedro Pires – É
interessante falar que a continuidade do Fomento ao Teatro em São
Paulo proporcionou alguns outros pequenos ganhos. Ainda não é uma
política pública
mais abrangente, ou melhor, um conjunto de políticas públicas nos
três níveis – municipal, estadual e federal – que se complementam e
formam um sistema de cultura
nacional como a gente tem em países que nossos políticos têm um
pouco como modelos, por exemplo, a França. Existem pequenos avanços,
até talvez pela intimidação trazida pelo Fomento. A partir do
Fomento você tem o Governo Estadual colocando todo ano um projeto de
apoio a produções, que hoje se chama ProAC. Antes do Fomento, o
Estado lançava isso a seu bel prazer, quando queria. Então de certa
forma, nos últimos tempos, todo ano ele tem colocado um pouquinho de
dinheiro para esses projetos, feitos por meio de edital, com uma
comissão pública para julgá-los. Você tem o Myriam Muniz que mal ou
bem, por meio da Funarte, tem sido editado. Você tem de certa forma
um outro projeto, o VAI, que se transformou em lei em São Paulo,
também atendendo a demanda, não só de artistas de teatro, mas ainda
de artistas jovens de teatros de grupos e de teatro de outras artes.
Então o Fomento tem um pouco essa função de “cunha”, que desencadeou
alguns outros indícios de políticas públicas, muito tênues ainda. Na
verdade a luta é para que essas políticas se ampliem e permaneçam no
tempo, nos moldes do Fomento, como leis, como uma dotação
orçamentária específica, que possibilita justamente a organização
dos artistas em torno de seus projetos artísticos. Se você não tem
um horizonte de trabalho ou uma perspectiva de mais médio/longo
prazo, não dá para você organizar artisticamente seu projeto, porque
você fica dependendo de sair para daqui a dois meses, e se ele não
sai, fica seis, sete, até oito meses esperando o próximo projeto,
que não é de mercado, que não é de interesse do mercado, é de
interesse público, para você poder se articular de novo. Quer dizer,
um outro ganho é que a gente pode ampliar um pouco o nosso horizonte
de trabalho e de pesquisa artística.
Moreira – Ele falou do ProAC. O ProAC é lei, uma lei fajuta,
mas é lei. E essa lei fajuta foi feita em cima da hora, correndo,
porque os deputados estavam acuados na Assembleia Legislativa com um
projeto que saiu do bojo do “Arte contra a Barbárie”, que era o
Fundo Estadual de Arte e Cultura. O Alckmin foi obrigado pelos
deputados a criar um outro projeto porque ele não queria o Fundo,
que era uma coisa mais avançada. Então virou lei. O movimento
Mobilização Dança de São Paulo arrancou um projeto de fomento à
dança, que no município virou lei. O Serra cortou o orçamento, quer
dizer, cortou a perna do projeto. O que obriga uma luta permanente
pelos recursos, mas de qualquer forma, a Lei de Fomento ao Teatro
não está sozinha. Você tem pelo menos mais duas leis no Estado de
São Paulo, no Estadual ou no Municipal que aponta isso. Então, a
“cunha” rachou o bloco monolítico mercantil.
No Manifesto “Arte pela Barbárie”, vocês falam em “ausência de
políticas públicas de Estado”. Vocês poderiam explicar melhor o que
querem dizer com esse termo?
Moreira – Na verdade tinha uma política única até agora, uma
política mercantilista. Agora se incorporou a ela uma outra coisa,
que é disfarçada no discurso ideológico de inclusão e de
universalidade. Se incorporou uma política cultural de disseminação
de práticas culturais como forma de controle social, como forma de
controle da violência. As oficinas de cultura da periferia são os
melhores exemplos disso. É um “cala a boca”. Não bota um revólver na
minha cabeça, vai bater lá (nas oficinas) para se sentir artista, ou
então Pontos de Cultura, uma série de coisas, aparentemente
avançadas. Na verdade, representa uma política do estado junto com a
política mercantil, que é uma política de contenção social. O papel
da cultura não é contenção social. Muito pelo contrário. Mas o
estado tem essa política. Ao mesmo tempo, nesse discurso de
contenção social, ele acaba sendo obrigado a contemplar outras
falas, que a gente respondeu na pergunta anterior. O embate é esse.
Pedro – Particularmente com relação ao Estado de São Paulo, a
gente fez um levantamento dos últimos dois orçamentos do Estado não
realizados, mas orçados. Vimos que existe uma política cultural do
Estado, apesar de que o primeiro ponto a se ressaltar é que o
orçamento direto dele para a cultura é de 0,63%, ou seja, é bem
abaixo do mínimo que é recomendado pela ONU, que é de 1%. Talvez
agora com a PEC 150 – Proposta de Emenda à Constituição, ele suba
pra 1,5%. Mas esses 0,63%, que já é ínfimo perto do valor que a
cultura deveria ter, a gente percebe a existência de uma
concentração de recursos muito grande. Então existe uma política,
mas percebemos uma concentração muito grande de recursos para a área
da música, com a OSESP, com as oficinas de música, com o projeto
GURI, que junto com a (Faculdade) Santa Marcelina está desenvolvendo
projetos pelo Estado de formação de músicos. Quer dizer, existe uma
grande concentração de recursos nessa área. A gente não está falando
isso porquetem que tirar isso, só queremos que exista algo parecido
para o teatro, para a dança, para as artes plásticas. Se eu não me
engano, 30% do orçamento do governo estadual vai para a música,
logicamente focando a música erudita, talvez uma formação de mão de
obra para a OSESP. Quer dizer, tem essa pirâmide. E é a OSESP que
consome grandes recursos. Também é meio gritante a participação do
orçamento da TV Cultura, a TV Educativa de São Paulo, dentro da
Secretaria de Estado da Cultura, que é de 40%. Então seria o caso de
se pensar: será que a TV Cultura não teria que ir para uma
Secretaria de Comunicação e daí, talvez, os projetos artísticos de
dentro da TV Cultura possam sim ir para a Secretaria de Cultura? É
um recurso muito mais da comunicação, utilizando verba da cultura,
sendo que existe uma pasta de comunicação. Está na hora da gente
começar a olhar esses números e questionar o Estado, o Município, o
Governo Federal um pouco na linguagem deles. Falar: olha, vocês
falam que ficam fazendo, mas olha os números. Olha a desproporção.
Vamos olhar um pouco o sistema de saúde. Existem políticas públicas
de saúde, com recursos suficientes, mas existe uma gama de políticas
públicas para a saúde, que por exemplo, a gente precisa começar a
desenvolver para o teatro e para as artes em geral. Separar um pouco
a cultura das artes, porque se coloca tudo dentro do mesmo bolo.
Hoje, os Pontos de Cultura do Governo Federal, que já estão fazendo
parcerias com o Governo Estadual, cabe tudo: desde trabalho que
devia serda assistência social, do governo, até trabalhos artísticos
ou semi-artísticos. Se não pensarmos um pouco nessa divisão, parece
que tem muito, mas não tem. Precisávamos começar a pensar, nós
artistas, não só de teatro, mas das outras artes também, na questão:
qual é a participação efetiva da arte, do financiamento público para
a arte, para a pesquisa artística, que não seja o financiamento de
mercado? Via as leis de renúncia fiscal? E analisar o que isso
representa no orçamento para que as políticas de governo se tornem
mais estabelecidas, se transformem em Políticas de Estado para as
Artes. Para que as artes possam ter o desenvolvimento merecido. Já
que queremos ser um país de primeiro mundo, com Olimpíada e Copa do
Mundo, então precisamos ter um sistema de cultura que faça jus a
essa vontade de ser primeiro mundo.

Moreira – O Estado de São Paulo tem a terceirização. Ele cada
vez mais entrega a gestão pública da cultura para universos
privados. O Pedro falou da Santa Marcelina, por exemplo, tem a OS
(Organização Social), a associação que controla o Sérgio Cardoso e
outros. Então o Estado se torna omisso nas suas obrigações e passa
essas obrigações para o universo privado, ainda que ele seja
onguista. Isso é uma política pública.
Como se deu a retomada da mobilização? Como a comissão foi
formada?
Mariana Senne – A comissão foi formada na primeira plenária
que aconteceu no teatro Coletivo, em abril. Quem fez a convocação
foi a Cooperativa Paulista de Teatro. Ai então nessa plenária se
colocou o desejo de que a gente pudesse ter uma comissão de
trabalho, que pudesse voltar a ter uma articulação sobre política
pública.
Pedro – Na verdade, a ideia dessa comissão é a princípio, não
de se tornar um movimento. É de se ter um grupo de estudo e uma
plenária permanente, da onde podem participar representantes da área
teatral em geral, não só de teatro de grupo, mas dos artistas
interessados em fazer um teatro de pesquisa, um teatro mais a longo
prazo, não uma montagem efêmera. Mas ela surgiu dessa necessidade da
gente começar a estudar mais um pouco esse universo, para apresentar
propostas, ou que sejam de questionamento, ou que sejam propostas
concretas de avanço nessa questão das políticas públicas. Então ela
veio um pouco com esse caráter de sentar na cadeira, pegar planilha,
pegar leis, estudar as leis de outros países, o sistema de cultura
de outro país, para que face a esses outros modelos, a gente
apresente propostas para próximos passos, para que assim nossa
política cultural se desenvolva a contento. Você falou dos outros
países.
Vocês se inspiraram nas políticas públicas de outros países?
Pedro – Nós estamos em um período de estudos ainda. Já
analisamos a lei de Portugal e começamos a entrar um pouco no
panorama francês. Já percebemos que eles estão anos luz a nossa
frente, no sistema de financiamento. Por exemplo, na França, tem
teatros municipais com diretores que não são artista, mas são
responsáveis pela organização da programação para várias áreas
artísticas – teatro, dança, música – e todos esses diretores têm um
conceito de quem é da comunidade e onde estão inseridos. Eles têm um
sistema de relações públicas que vai fazer com que essa programação,
que é definida por esse diretor junto com uma comissão regional,
crie uma noção estética mais apurada nesse espectador. Você tem
sistemas de financiamento de grupos estáveis, cujos projetos são de
três anos, e que normalmente se são cumpridos, são renováveis por
mais três anos. Você tem as prefeituras das cidades que são
compradoras de espetáculos. Então as companhias organizam suas
turnês dentro da França e muitas delas sobrevivem dessa forma. É um
sistema complexo, que logicamente, falando com os franceses, existem
críticas. Mas se a gente for olhar para, por exemplo, o Estado de
São Paulo, que é “uma potência econômica”, você conta nos dedos os
municípios que têm alguma política cultural. Se não, o Estado de São
Paulo é um deserto. Você chega num teatro não tem funcionário. Ou se
tem funcionário, ele não sabe o que é teatro, ele nunca viu teatro.
Enfim, precisamos ampliar esse horizonte de trabalho para todos os
artistas, em vários meios.
Moreira – Não é só a França. Estamos estudando Portugal,
Argentina, Inglaterra, Alemanha e França. Recentemente, por exemplo,
se tirou que um grupo de trabalho vai se reunir em separado para
fazer um cruzamento desses diferentes países. Ao invés de ficar só
em um relatório de como funciona cada um, vai haver um cruzamento
entre os países, uma rede de informação. Isso é um trabalho que vai
ser feito ainda.
|